Mercado Internacional

  • Carta Mensal – Outubro 2021

    “Investment success doesn’t come from buying good things, but rather from buying things well.”

    Howard Marks

    O mês de setembro foi marcado por episódios de aversão a risco no mercado local e internacional. Globalmente, os índices de ações sofreram quedas mais acentuadas, em meio a um movimento de fortalecimento do dólar e aumento dos juros longos, especialmente no mercado americano. Diversos eventos contribuíram para uma volatilidade mais alta do que o usual, como acontecimentos políticos, decisões de autoridades monetárias, choques nos preços da energia e notícias sobre um potencial calote de uma grande incorporadora chinesa.

    O mercado internacional parece estar se dirigindo para um capítulo mais desafiador e negativo do crescimento econômico, após a forte recuperação que se deu com o processo de reabertura de vários países desenvolvidos. Neste mês, os membros do Banco Central dos Estados Unidos deixaram clara a preocupação com efeitos inflacionários mais persistentes, com o chairman Jerome Powell indicando que a diminuição no ritmo de compras de ativos, que provavelmente precede um início das altas de juros, pode começar em novembro e terminar em meados de 2022. A despeito do Coronavírus parecer cada vez mais um capítulo superado nos mercados, o seu legado econômico é problemático. A inflação mundial segue rodando em níveis altos por mais tempo do que se esperava, o que tem uma grande relação com os desequilíbrios na cadeia de bens duráveis e na oferta de trabalho. É esperada uma normalização deste quadro à frente, mas em um ritmo significativamente mais lento do que as autoridades monetárias de diversos países acreditavam, gerando um vetor importante para altas de juros antecipadas.

    Além disso, parte da aversão a risco neste mês veio da China, que está tendo uma forte desalavancagem do seu setor imobiliário após as intervenções regulatórias do governo. Com isso, as dificuldades financeiras da Evergrande, a segunda maior incorporadora do país e detentora de um passivo da ordem de US$ 300 bilhões, viraram manchete. Embora acreditemos que isso não represente um risco parecido com a quebra do Lehman Brothers em 2008, e que um eventual default deverá ser evitado e atenuado pelas autoridades chinesas, o que nos preocupa é a forte desaceleração econômica do país. O setor imobiliário representa um percentual relevante do PIB, das vagas de trabalho e do lucro dos bancos. Outro efeito negativo das intervenções do governo chinês é o risco de racionamento de energia, uma vez que a matriz energética é intensiva em carvão, o que vai de desencontro com o objetivo de atingir as metas de emissão de carbono.

    No Brasil, foi o terceiro mês consecutivo de queda da bolsa. O início de setembro foi marcado por episódios de atrito entre os poderes, o que gerou uma volatilidade adicional nos mercados. O risco fiscal segue se acentuando na medida em que nos aproximamos da eleição, e isso também está cobrando o seu preço. O problema dos precatórios caminha para ser endereçado via PEC, mas surgiram novas pressões políticas para renovar o auxílio emergencial fora do teto de gastos, o que voltou a preocupar os mercados.

    As expectativas inflacionárias para 2022 continuam se deteriorando, com a última leitura do IPCA mostrando diversas fontes de pressão, como preços de energia, bens industriais e serviços. Na sua última reunião, o Banco Central subiu em mais 1% a taxa Selic meta para 6.25%. A comunicação foi clara, no sentido de que o Bacen aumentará a Selic até o nível necessário para instigar a convergência das expectativas inflacionárias para a meta, mas que isso não significa aumentar o ritmo das altas de juros. Com isso, o mercado passou a esperar um ciclo de alta mais longo, com uma Selic final mais alta. Isso aprofunda o desafio fiscal que o país enfrenta, uma vez que teremos menos crescimento com mais inflação em no ano que vem.

    Acreditamos que as correções vistas neste mês têm mais correlação com a mudança no cenário internacional do que no cenário local, uma vez que os preços dos ativos brasileiros já embutiam um grau relevante de pessimismo precificado. Esse processo de correção advém de uma deterioração dos fundamentos, principalmente nos juros, mas o nível já bastante deprimido de preços pode trazer assimetrias interessantes. Quando todos os riscos passam a ser precificados, qualquer alteração positiva de cenário é um grande catalisador para os preços de ativos. Novamente, acreditamos que o cenário atual prescreve paciência e um certo senso de oportunidade para os ativos locais.

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