inflação

  • Carta Mensal – Maio 2021

     

    Inflação e Não Linearidades

    “History and societies do not crawl. They make jumps. They go from fracture to fracture, with a few vibrations in between. Yet we (and historians) like to believe in the predictable, small incremental progression.”

    Nassim Taleb

    O mês de abril foi marcado por uma performance positiva dos ativos de risco em meio a um movimento de acomodação nos juros longos americanos e enfraquecimento do dólar. O Dollar Index, que mede a performance da divisa americana contra uma cesta de moedas desenvolvidas, teve queda de 2%, enquanto o Nasdaq e o S&P 500 subiram respectivamente 5.4% e 5.2%. Diferentemente dos últimos meses, a performance positiva do exterior foi acompanhada por praticamente todos os ativos brasileiros. O real valorizou 4.66% contra o dólar, o Ibovespa teve sua segunda alta mensal consecutiva e tivemos mais de 7 bilhões de reais de entrada do investidor estrangeiro na bolsa. Os índices de títulos públicos pré-fixados e atrelados à inflação também tiveram sua primeira alta mensal no ano.

    No mercado local, as curvas de contaminação por coronavírus ainda estão em patamares altos, mas a dinâmica dos dados segue melhorando e a perspectiva de reabertura nos próximos meses é cada vez mais forte. O Brasil tem conseguido administrar mais de um milhão de doses diárias de vacinas e a vacinação está começando atingir boa parte dos grupos de risco, que representam mais de dois terços das mortes por Covid no país. Os dados de atividade dos dois primeiros meses do ano foram melhores do que o esperado, mostrando resiliência após o esgotamento de alguns programas de estímulo, como o auxílio emergencial. Com uma grande contribuição do câmbio e dos preços de commodities, a inflação de doze meses está rodando 0.85 p.p. acima do teto da meta, em 6.1%, e deve continuar o movimento de alta até arrefecer no segundo semestre. O Copom continuou a trajetória de subida da Selic, com aumento de  0.75%, para 3.5%, conforme o esperado, e ainda sugeriu mais uma elevação no mesmo nível para a próxima reunião. Manteve-se o discurso de “normalização parcial” que o comitê vem adotando, embora as projeções de inflação para 2022 já tenham começado a se movimentar e ultrapassaram o centro da meta no Relatório Focus. Além disso, ressaltou-se novamente que a pressão inflacionária no curto prazo, vinda principalmente de preços administrados, é um choque de natureza temporária.

    O orçamento deste ano foi sancionado no limite do prazo, com vetos parciais para contornar a peça inexequível apresentada inicialmente, mas deixando os gastos da área da saúde fora do teto, assim como em 2020. O Governo e o Congresso fecharam um acordo que pode elevar os gastos de combate à pandemia fora da meta fiscal e do teto de gastos, o que também permitiu a renovação dos programas de crédito a micro e pequenas empresas (Pronampe) e de redução de jornada (Bem). A janela política de curto prazo pode ter desenvolvimentos positivos, como o avanço da reforma administrativa, tributária ou anúncio de privatizações. No entanto, a pressão vinda do Legislativo com a CPI da Covid e o início da campanha presidencial da oposição pode acabar restringindo a possibilidade de alguma reforma mais significativa. Surpresas negativas vindas da má condução da política fiscal ou do ambiente político devem continuar sendo vetores de correção, conforme alertávamos há algum tempo. Outros países da América Latina também estão passando por episódios de turbulência política, como a Colômbia e o Peru, o que pode motivar fluxos maiores de saída do investidor estrangeiro pela região.

    As perspectivas de crescimento econômico seguem se fortalecendo nos EUA, com uma consistente melhora da mobilidade vinda do controle da pandemia e da rápida vacinação. Além disso, em pouco mais de 100 dias de governo, Biden já apresentou mais de 6 trilhões de dólares em propostas de gastos adicionais, quase 30% do PIB americano. Até agora, já foi aprovado o ARP (“American Rescue Plan”), garantindo US$1.9 trilhões em gastos, via pagamentos de US$1,400 para famílias americanas e extensão dos US$300 em benefícios do seguro desemprego até setembro. Com os estímulos, a renda pessoal aumentou 21.1% de fevereiro para março e o consumo no trimestre cresceu a uma taxa anualizada de 10.7%, uma das maiores do Pós-Guerra. O PIB do primeiro trimestre cresceu a uma taxa anualizada de 6.4%. Embora PIB nominal ainda não tenha ultrapassado o nível pré pandemia, os indicadores de atividade de alta frequência seguem apontando para um forte aquecimento da economia. As vendas de casas estão no maior nível desde 2006 e os índices de confiança do consumidor seguem ultrapassando as expectativas. Os custos com mão de obra aumentaram acima do esperado no primeiro trimestre, guiados pela inflação de salários, algo que deve se fortalecer conforme a reabertura se amplifique e a recuperação no mercado de trabalho seja plena.

    O Fed continua a ressaltar o fato de que a recuperação é incompleta, inclusive com menções à taxa de desemprego das pessoas de baixa renda. A postura da autoridade monetária americana diverge de alguns bancos centrais de países desenvolvidos, que começaram a discussão de retiradas de estímulos. Os Banco Centrais do Canadá e da Inglaterra, por exemplo, anunciaram recentemente uma redução no ritmo de compras mensais de ativos. Os preços de commodities industriais estão em alta e algumas das cadeias de suprimentos enfrentam escassez, como a de semicondutores. A inflação de alimentos segue sendo um elemento de pressão em diversos países, o que tende a impactar mais negativamente a cesta de consumo dos emergentes do que desenvolvidos. A tendência de alta da inflação e das taxas de juros, pelo menos de mercado, já parece disseminada.

    Fonte: Bloomberg. Números ponderados a partir do peso dos países no PIB mundial pelo método da PPC

    No curto prazo, os mercados globais parecem estar especialmente preocupados com os impactos de uma volta da inflação no mundo e seu efeito sobre os juros, principalmente por conta da abundância de liquidez e fluxos expressivos para ativos de risco que vivenciamos nos últimos anos. Mais a longo prazo, enquanto tivermos um crescimento acima dos juros reais, provavelmente não veremos uma grande preocupação com relação à sustentabilidade da dívida pública de alguns países desenvolvidos, ou com as políticas fiscais frouxas que vem sendo adotadas há algum tempo.  Segundo dados do UBS, o déficit agregado dos governos em 2020 representou 11% do PIB mundial, enquanto a expansão dos balanços de bancos centrais representou cerca de 13%. A hipótese de que essas políticas fortemente expansionistas representam um risco inflacionário relevante, principalmente nos países desenvolvidos, foi pouco assertiva no passado. Após os mais de 6 anos de expansão de balanço do Fed com a crise de 2008, os preços cresceram de forma modesta, inclusive criando problemas para o atingimento das metas inflacionárias correntes.

    É possível argumentar que o balanço expansionista do Fed já criou alguns problemas no passado, embora não seja clara a relação entre o enxugamento de balanço e a turbulência no mercado de ações em 2018. A política de enxugamento, iniciada em setembro de 2017, durou praticamente 2 anos e diminuiu o balanço de US$ 4.5 trilhões em 2015 para US$ 3.8 trilhões em agosto de 2019, quando o movimento foi revertido. O fato é que hoje essa conta chega a mais de US$ 7.7 trilhões. O balanço do Fed saiu de 24.4% do PIB americano em dezembro de 2015 para 19.3% ao final de 2019. Em abril de 2021, o balanço do Fed representava 36.4% do PIB americano.

    Com a devida licença poética, as economias modernas têm funcionado como um grande carro. O dinheiro é a gasolina, o crédito é o motor, os bancos centrais são os postos e os governos são os motoristas. Estamos em uma altura do campeonato onde os postos baixaram muito o preço da gasolina e o frentista está dirigindo o carro. Os motoristas pisaram tão fundo que a pergunta é: o motor vai superaquecer? Os freios aguentam uma parada mais brusca? Algumas economias são carros usados com freio a tambor desgastado e outras são carros zero com freio a disco nas quatro rodas, mas o problema essencialmente é esse. Se e quando isso vai acontecer, ninguém sabe.

    Dito isso, temos em mente que é necessário ter muito cuidado quando pensamos em tendências, uma vez que a mente humana tem certas dificuldades de incorporar não linearidades ou até perturbações que podem impactar significativamente os resultados das suas projeções, principalmente no mercado financeiro. Acreditamos que o mundo passou por um processo de transformação relevante nas últimas décadas, o que aumentou a sua complexidade. A grande verdade é que não deveríamos tentar fazer grandes projeções sobre o futuro a longo prazo, porque simplesmente não vemos vantagem em fazê-lo.

    O que fica claro é, quanto maior a incerteza sobre esses temas, mais certa é a maneira com a qual temos que agir com relação a eles. Ao longo destes últimos anos, temos sido cada vez mais focados no nosso comportamento como investidores de longo prazo, tentando construir uma carteira que resiste ou até que se beneficia das grandes transformações e do aumento de complexidade. Nesse sentido, é muito mais fácil tentar olhar a variação, o rumo que as coisas estão tomando, e tentar ajustar o seu portfólio, do que fazer previsões sobre o destino do mercado em uma linha reta.

  • O que esperar para a economia brasileira em 2021, por Gustavo Franco

    Em live promovida pela Taler Gestão de Patrimônio, o sócio-fundador da Rio Bravo Investimentos e ex-presidente do Banco Central comentou sobre aspectos econômicos que o investidor deve ficar de olho

    Prestes a dizer adeus, o ano de 2020 não foi fácil para a economia. A pandemia do coronavírus abalou os mercados mundiais. No Brasil, a quarentena foi decretada em março, com o fechamento dos comércios e restrições aos serviços, provocando queda do ritmo econômico e aumento do desemprego. Quais as expectativas para 2021? O futuro ainda é incerto, a recuperação segue em passos lentos e a orientação ao investidor é ter cautela.

    A Taler Gestão de Patrimônio discutiu as perspectivas econômicas para 2021 em live com Gustavo Franco, o sócio-fundador da Rio Bravo Investimentos e ex-presidente do Banco Central (BC). Em conversa com Renato Pupo Netto Iversson, sócio da Taler, o economista fez uma retrospectiva dos principais aspectos que impactam o país e o que devemos acompanhar no próximo ano.

    Você pode assistir ao vídeo completo no final da matéria e no canal da Taler no Youtube.

    Inflação

    Para Gustavo Franco, a inflação deve ser acompanhada com preocupação. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) e o IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado) estão discrepantes. O descolamento entre os dois índices pode ser explicado pela desvalorização do real. Por enquanto, as previsões do BC são de que a inflação para os próximos anos se manterá dentro da meta. “Vai requerer um monitoramento refinado do BC para tentar se antecipar em verificar um sinal de desestabilização de expectativas.”

    Dívida pública

    A pandemia elevou os gastos públicos e reduziu as receitas do governo, e como consequência sairemos de 2020 com uma dívida pública de cerca de 100% do PIB. “Ano que que vem será o primeiro em que teremos esse nível de endividamento e despesa com juros. Nos ajuda o fato de que historicamente a Selic é a mais baixa em muito anos”, diz Gustavo Franco.

    O ex-presidente do BC lembra das recentes crises fiscais sofridas por estados, como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Há dúvidas se o colapso que atrasou o pagamento de servidores e aposentados poderia chegar à esfera federal. De acordo com Gustavo Franco, o governo federal está preocupado em mergulhar na irresponsabilidade fiscal. O sinal de alerta veio justamente do caos fiscal vivido por alguns estados.

    Auxílio emergencial

    O governo concedeu o auxílio emergencial para ajudar famílias que perderam renda na pandemia. As parcelas foram por três meses no valor de R$600, e depois prolongadas por R$300 até 31 de dezembro. O dilema é se o governo irá manter algum tipo de transferência de renda nos próximos meses, com o aperto das contas públicas.

    O economista comenta que, em alguns estados, os valores do auxílio até aumentaram a renda real, aqueceram setores econômicos e elevaram a taxa de poupança. “O ideal seria que o auxílio fosse substituído por um mecanismo que, inclusive, consolidasse outros programas de transferência direta”, defende. Algumas ideias são de unificar o auxílio emergencial com abono salarial e bolsa-família.  O desafio é fazer o dinheiro chegar para quem realmente precisa.

    Investimentos em 2121

    O cenário de queda na taxa de juros empurra os brasileiros para investimentos de maior risco. Se por um lado a mudança beneficia o aquecimento econômico do Brasil, por outro diminui a rentabilidade da renda fixa e títulos públicos.

    Na opinião de Gustavo Franco, determinadas classes de ativos ainda reservam potencial de crescimento, com capacidade de atrair mais investidores, como produtos estruturados (FIDC, CRI, CRA) e os fundos imobiliários.

    Para ficar no radar em 2021, o estrategista-chefe da Rio Bravo também destaca as novidades do mundo digital aplicadas ao mercado financeiro. Os fundos quantitativos, ou chamados de fundos quants, crescem como opção interessante. A composição de uma carteira é feita por algoritmos, programação e modelos matemáticos, a partir de uma análise quantitativa. Com o uso da tecnologia, o objetivo é proteger os investimentos das oscilações do mercado e minimizar os julgamentos subjetivos.

    Por fim, a ajuda de um profissional pode fazer a diferença para quem quer investir em títulos com maior grau de complexibilidade. O apoio de gestores auxilia na busca por boas oportunidades e um acompanhamento frequente da carteira. “Como o investidor terá que penetrar em áreas novas, em classes de ativos diferentes, o perigo são as fórmulas mágicas. A recomendação é: procure um profissional. Se aconselhe e se informe”, afirma Gustavo Franco.

     

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