Cenário Internacional

  • Carta Mensal – Fevereiro 2022

    “When I hear complaints about less liquidity, I remember there is such a thing as too much liquidity.”

    Paul A. Volcker

    O mês de janeiro foi positivo para o mercado brasileiro e os mercados emergentes em geral. Após quase dois anos de estímulos econômicos sem precedentes, os principais mercados desenvolvidos estão passando pelo início do processo de ajuste de política. Em um mês de forte queda nos países desenvolvidos, o Real e a bolsa local tiveram performance destaque com uma alta de 13% da bolsa em dólar. Neste mês, o fluxo dos investidores estrangeiros foi mais um recorde, registrando uma entrada líquida acima de R$30 bilhões, o que beneficiou Large Caps brasileiras, como bancos e commodities.

    No cenário internacional, a contaminação pela variante Ômicron foi bastante disseminada. Diversos países, mesmo com uma contaminação rápida e elevada, estão relaxando as restrições e passando a tratar a Covid como um problema menor e mais localizado. Por conta da letalidade mais baixa e da imunização natural causada por esta cepa, a pandemia segue impactando cada vez menos os mercados financeiros. A inflação mais alta e disseminada segue preocupando as autoridades monetárias mundialmente. Nos EUA, o Fed adotou um tom mais severo em relação à inflação, indicando que o mercado de trabalho está próximo do pleno emprego e que os setores mais afetados pela pandemia melhoraram muito nos últimos meses. A comunicação mais dura indica que a probabilidade de um ajuste monetário mais rápido e intenso está mais alta. Na Ásia, a economia chinesa segue fragilizada pela desaceleração do setor imobiliário, mas as autoridades estão respondendo com medidas de amparo ao setor e estímulos monetários, que devem impactar a atividade a médio prazo.

    No Brasil, o mês foi tranquilo para os mercados com o recesso parlamentar. A política fiscal segue sob questionamento, com o governo focando cada vez mais em temas eleitoreiros, como a desoneração dos combustíveis e reajustes para o funcionalismo. Do outro lado, a inflação segue pressionada e preocupando o Banco Central. O IPCA-15 de janeiro veio acima do esperado, acumulando 10.42% em doze meses. A composição do índice de preços ao consumidor continua negativa tanto para os componentes mais voláteis como para o núcleo. Os preços de bens industriais ainda estão pressionados e a inflação de serviços segue acelerando.  Neste mês, o COPOM subiu a taxa Selic meta em mais 1.5%, para 10.75%. Com a inflação esperada rodando acima do teto da meta, uma política fiscal desnecessariamente frouxa pode implicar uma política monetária excessivamente restritiva e por mais tempo do que necessário. Ainda assim, os ativos brasileiros já embutem um prêmio de risco tão elevado que, de certa forma, esse risco fiscal já está bem precificado. O massivo fluxo de entrada dos portfólios estrangeiros neste mês não surpreende, haja vista os valuations historicamente baratos combinados com a moeda nacional excessivamente desvalorizada.  Seguimos atentos ao potencial impacto que a reprecificação de juros nos Estados Unidos e outros desenvolvidos pode causar na dinâmica de portfólio dos ativos globais, seu reflexo na disponibilidade de liquidez internacional e, em especial, no preço das commodities.

  • Carta Mensal – Abril 2021


    A Importância do Timing

    “Remember, things are never clear until it’s too late.”

    Peter Lynch

     

    No mês de março, os desafios do cenário macroeconômico local voltaram a fomentar episódios de alta volatilidade e de correções, principalmente no mercado de renda fixa. A bolsa brasileira subiu 6% no mês, mas esse número reflete principalmente a inclinação dos juros de mercado e a dinâmica de crescimento no exterior, uma vez que quase 60% do resultado positivo do índice vem de empresas de commodities e de bancos. O país enfrenta provavelmente o pior momento da pandemia, rupturas no ambiente político, queda nas projeções de crescimento, aumento nas projeções de inflação, e uma intensificação das preocupações relacionadas à política fiscal. Como resultado, todos os indicadores relevantes do mercado brasileiro, tanto na renda fixa como na renda variável, fecharam o primeiro trimestre do ano em terreno negativo, com o real desvalorizando 9,41% contra o dólar neste período.

    O cenário internacional continua se mostrando construtivo para a recuperação da atividade econômica, principalmente no grupo de países desenvolvidos que está acelerando a vacinação, como o Reino Unido e os EUA.  O governo americano adiantou de 1º de maio para 19 de abril a data em que adultos de qualquer idade poderão receber pelo menos a primeira dose da vacina contra Covid-19 e o Reino Unido já confirmou a data de reabertura dos comércios considerados não essenciais e de pubs para 12 de abril. O processo de vacinação parece estar levando a uma redução significativa no número de mortes e de hospitalizações, principalmente quando discriminamos os grupos prioritários do restante da população. Esse processo deve iniciar a recuperação dessas economias já no segundo trimestre de 2021.

    Os EUA nos parecem ser o país que sairá melhor e mais rápido da crise, crescendo entre 6,0%  a 7,5% neste ano. O próximo ponto de atenção será a discussão do novo pacote fiscal de mais de 2 trilhões de dólares, que terá foco em infraestrutura e será parcialmente financiado, entre outras coisas, pelo aumento de 7 pontos percentuais na alíquota de impostos corporativos, de 21,0% para 28,0%. O Fed continua a sinalizar que sua taxa de juros de política monetária deve permanecer em 0% por um longo período de tempo e que uma primeira sinalização de redução no ritmo de compra de ativos só deve aparecer a partir do momento em que houver uma clara recuperação do mercado de trabalho e aumento significativo da inflação, acima da meta de 2%. Em alguns países europeus, a vacinação continua relativamente lenta e a incapacidade de conter a curva de infecções no curto prazo engatilhou mais uma rodada de medidas de distanciamento. O impacto dessas medidas no desemprego e atividade em geral está levando o Banco Central Europeu (ECB) a adotar uma postura ainda mais leniente que o Fed, indicando que o nível de estímulos ainda pode aumentar, caso se faça necessário.

    Diversos desenvolvimentos políticos impactaram o mercado brasileiro neste mês: a restituição da elegibilidade do Ex-Presidente Lula, a aprovação de um orçamento inexequível, as seis trocas ministeriais empreendidas pelo Presidente, incluindo na pasta da saúde, etc. Acreditamos que o teatro político que estamos vendo desde a metade de fevereiro não reflete simplesmente a natureza complexa das instituições brasileiras, mas uma conjunção latente da piora na situação sanitária e do cenário macroeconômico. Os problemas seculares de descontrole do gasto público se somaram às sequelas do enfrentamento à pandemia.

    Em 2020, as contas públicas registraram o sétimo déficit consecutivo do país em 702,9 bilhões de reais (9,49% do PIB), enquanto o Banco Central empreendeu um corte agressivo que renovou a mínima histórica da taxa selic em 250 pontos-base, para 2%. As fortes medidas estimulativas, incluindo o gasto de 322 bilhões de reais com o auxílio emergencial, contribuíram para uma revisão significativa na projeção de queda do PIB de 2020, que caiu 4,1%, mas também contribuíram para um agravamento do problema da dívida pública, que saiu de cerca de 50% do PIB em 2010 para 90% do PIB neste ano.

    O IPCA do ano passado foi bastante impactado pela inflação de bens, que refletia o tamanho e a extensão do auxílio emergencial. Atualmente, há diversos outros fatores de preocupação. No passado, a correlação inversa entre os termos de troca e a taxa de câmbio blindou parte do impacto vindo da inflação de bens comercializáveis, cuja dinâmica de preço costuma se dar no exterior. No entanto, a depreciação consistente do câmbio tem contribuído para importarmos inflação externa, mesmo com um alto nível de ociosidade na economia. O impacto desses choques seria muito menos preocupante se a dinâmica fiscal estivesse favorável, mas provavelmente veremos o Banco Central favorecendo um ciclo de alta mais agressivo para não perder as expectativas inflacionárias de 2022.

    A dinâmica dos problemas locais já transcendeu a dimensão econômica. O alto nível de mortes e a lotação das UTI’s pressiona os governantes a adotarem políticas de distanciamento mais rígidas, levando a mais desemprego e menos atividade. Isso diminui a popularidade do governo, interrompe as reformas e cria mais gastos, como a renovação dos 44 bilhões de reais de auxílio emergencial, ou aprovação do orçamento “criativo”. Como estamos à beira do precipício fiscal, os mercados reagem mal, apertando as condições financeiras e exigindo prêmio de risco. Com isso, o dólar, que já vive uma dinâmica externa positiva por conta da subida dos juros longos americanos, se mantém em patamares mais fortes, pressionando ainda mais a inflação.

    A entrada do Ex-Presidente Lula na corrida eleitoral pode ser ilustrada pela frase frequentemente atribuída ao Ex-Ministro Pedro Malan: “No Brasil, até o passado é incerto”. E o mercado cobra prêmios pela incerteza. Acreditamos que o país enfrenta uma tempestade perfeita de desafios, porém alguns de vida útil contratada. Muitos ativos locais aparentam estar muito descontados, mas não significa que esse desconto é incoerente.

    A pandemia pode começar a mostrar melhoras dentro de alguns meses, com ênfase no segundo semestre. A velocidade de vacinação no país tem acelerado notavelmente e a antecipação das campanhas de vacinação nos países desenvolvidos acelera a disponibilidade de insumos para produção local. Com isso, diversas das variáveis que estavam pressionando a política fiscal e o cenário político podem sair de cena. Caso isso ocorra, há espaço para coordenação de reformas e de uma agenda mais positiva, o que certamente será incorporado nos preços de mercado. Por outro lado, o atraso dessa perspectiva nos aproxima cada vez mais da eleição de 2022. O timing da pandemia nunca foi tão importante.

     

     

  • Riscos e tendências globais para o investidor ter no radar

    Com as economias em recuperação e as incertezas da pandemia, confira o que vale a pena acompanhar para definir seus investimentos 

    Antes de definir onde alocar seu patrimônio, o investidor precisar avaliar muito bem os riscos e tendências que estão afetando as economias ao redor do mundo. Não é novidade que a pandemia gera uma situação de incerteza. Dúvidas como: quais os setores mais resilientes e promissores? Quais empresas estarão preparadas para as mudanças? Que países são mais seguros para investir?

    Em live realiza pela Taler Gestão de Patrimônio, Thiago Vitorello, gestor de Portfólios Internacionais da gestora, e Luis Otávio Oliveira, vice-presidente executivo da Pimco, conversaram sobre os acontecimentos que marcam o cenário internacional. Na opinião de Luis Otávio Oliveira, 2021 deve ser um ano de recuperação e de crescimento econômico no mundo, o que enxerga como um otimismo moderado.

    A live completa está no final da notícia e no canal do Youtube da Taler (https://www.youtube.com/watch?v=rPD-e5FSRuA&t=29s).

    No curto prazo (1 ano), Luis Otávio Oliveira destaca três grandes riscos internacionais que podem impactar os investimentos.  Conheça:

    1 – Fadiga fiscal

    Com o aumento dos gastos públicos para fazer frente à crise, os países adotaram uma série de pacotes fiscais. “A partir de 2022, grandes economias do mundo vão começar a repensar os pacotes fiscais”, avalia o executivo. Ele prevê um aumento dos impostos em alguns governos, como forma de reduzir o endividamento.

     

    2 – Desalavancagem da China

    A segunda maior economia mundial, a China, está preocupada com a sua alta alavancagem e deve começar a tirar o pé do acelerador quando o assunto é crédito, de acordo com Luis Otávio Oliveira. Por sua relevância, a desaceleração econômica causa efeitos em demais economias.

     

    3 – Cicatriz econômica

    O covid-19 causou mudanças de hábitos e de comportamentos. “Será que as empresas vão investir da mesma forma, será que o emprego vai se recuperar da mesma forma, será que as pessoas vão consumir da mesma forma. É uma grande dúvida”, diz.

    O vice-presidente executivo da Pimco também aponta quatro tendências globais que merecem atenção no médio e longo prazo, ou seja, nos próximos três a cinco anos. Confira agora quais são elas.

    1 – Ascensão da China

    “A China consegue produzir produtos com qualidade alta e com preço atrativo”, afirma Luis Otávio Oliveira. A potência avança como forte competidora na produção de bens, se tornando menos dependente do resto do mundo e com um consumo interno forte. Além disso, a China conseguiu uma recuperação mais rápida na crise do coronavírus.

     

    2 – Populismo

    O movimento que já crescia antes da pandemia, ganhou ainda mais força. “Toda vez que tem o pobre ficando mais pobre e o rico ficando mais rico há brecha para partidos e candidatos populistas de esquerda ou de direita.” O executivo da Pimco lembra os protestos ocorridos em Hong Kong, França e Chile, por exemplo.

    3 – Preocupação climática

    Países e empresas estão sob pressão para adotarem medidas cada vez mais sustentáveis, como o uso de energia limpa. Organizações comprometidas com a questão e que estão se transformando saem na frente na visão dos investidores.

     

    4 – Avanço tecnológico

    Por fim, Luis Otávio Oliveira cita que os negócios precisam se modernizar para atender as novas demandas dos consumidores, com novos hábitos e comportamentos. Modelos de negócios antigos são colocados em risco.

     

z
Fechar