carta mensal

  • Carta Mensal – Abril 2022

    “Investing is a popularity contest, and the most dangerous thing is to buy something at the peak of its popularity. At that point, all favorable facts and opinions are already factored into its price, and no new buyers are left to emerge.”

    Howard Marks

    O mês de março marcou a continuidade da janela positiva no mercado local, com forte queda do dólar e alta da bolsa brasileira, que voltou a ultrapassar os 120 mil pontos e acumula alta de 14.5% no ano. Interessante notar que para o índice das ações de 2ª linha o aumento foi de 6.7% no mesmo período, refletindo em relação ao primeiro índice, a valorização destacada dos setores financeiros e de commodities. O mercado internacional registrou sinais mistos. O S&P e o Nasdaq conseguiram mostrar recuperação mesmo em um cenário de maior preocupação com a subida de juros nos EUA. Por outro lado, os lockdowns na China, decorrentes da política de “Covid-Zero” e a intensificação do conflito entre a Rússia e a Ucrânia impulsionaram perdas nas bolsas europeia e chinesa.

    No cenário internacional, as preocupações com relação à velocidade de ajuste da política monetária nos Estados Unidos são crescentes. Além da pressão de preços causada pela alta das commodities e quebra de cadeias produtivas, o mercado de trabalho americano demonstra sinais de aquecimento e pressão sobre os salários. Em março, a taxa de desemprego caiu para 3.6%, praticamente retornando para patamares pré-pandemia. A inflação mais alta por mais tempo já está mostrando impacto crescente nas expectativas inflacionárias. A inflação implícita nos preços dos títulos públicos americanos de 5 anos indexados à inflação encerrou o mês 1.34% acima da meta de longo prazo do Fed. O Banco Central dos Estados Unidos iniciou o ciclo de alta de juros neste mês, subindo a taxa de política em 0.25%. Ao longo do mês, houve indicações de que o ritmo de altas deve aumentar para 0.50% e que o Fed deve implementar uma redução do seu balanço no valor de US$ 95 bilhões por mês. Dada a situação atual, o mercado já espera que o Fed tenha que subir sua taxa de juros acima do patamar considerado neutro, de aproximadamente 2.5%.

    Na contramão do resto do mundo, a China continua enfrentando uma situação crítica com relação à Covid. Xangai, hoje a cidade mais rica e populosa do país, está em um rígido lockdown, no qual os habitantes da cidade necessitam de autorização especial do governo para saírem de suas casas. As medidas devem impactar significativamente o crescimento do PIB chinês, hoje projetado em 5% pela mediana dos analistas da Bloomberg. Além disso, o lockdown deve intensificar a as pressões sobre as cadeias de produção e causar mais inflação. O momento para uma nova onda de Covid na China é bastante inoportuno, uma vez que a economia já enfrentava a desaceleração vinda da desalavancagem no setor imobiliário.

    O Brasil tem apresentado dados de atividade mais positivos na margem, o que tem elevado as projeções de crescimento para 2022. Em geral, guerras costumam apresentar consequências econômicas negativas, mesmo para os países terceiros. No entanto, algumas características do Brasil o tornam, de certa forma, um país mais defensivo com relação ao conflito da Ucrânia, como a característica de ser um exportador líquido de commodities e o estágio avançado da política monetária em relação aos nossos pares. Com isso, o fluxo do investidor internacional tornou o Brasil um beneficiário do fluxo para os mercados emergentes. Em março, COPOM aumentou a Selic em mais 1%, elevando a taxa meta para 11.75% anteviu que deve levar a taxa para 12.75% na reunião de maio. Apesar de dar indicações no sentido de que o final do ciclo de alta será na próxima reunião, o comitê preferiu adotar uma comunicação balanceada, deixando espaço para adotar mais contração monetária caso o quadro inflacionário sofra deterioração adicional. O IPCA de março teve alta de 1.62% no mês, acelerando a alta em doze meses de 10.54% para 11.30%. Foi a maior leitura mensal desde o plano real e superou as expectativas do mercado em 0.27 pontos percentuais. A composição do índice continua mostrando elementos desfavoráveis, com aceleração do índice de difusão de 74.8% para 76.1% e uma média dos núcleos que acumula 9.01% em doze meses, a maior desde 2003.

  • Carta Mensal – Março 2022

    Literalmente Apagando o Fogo com a Gasolina

    “Only the dead have seen the end of war.”

     George Santayana, 1922

    Em fevereiro, a aversão a risco tomou conta do mercado com o início da guerra na Ucrânia. As bolsas internacionais caíram, assim como as taxas de juros longas dos países desenvolvidos, e o dólar se fortaleceu frente às principais divisas do mundo. Por conta da alta relevância da economia da Rússia e da Ucrânia na produção de commodities energéticas e agrícolas, a guerra teve como reflexo uma forte alta no preço desses ativos, criando mais um vetor de preocupação para a situação inflacionária mundial.

    O impacto imediato das invasões russas já afeta os mercados em duas principais frentes: preços das commodities e o risco geopolítico. A Rússia exerce um papel fundamental no comércio primário mundial, sendo responsável por cerca de 11% da produção de petróleo global e, juntamente com a Ucrânia, 30% da produção de trigo. Além disso, 40% das importações de gás União Europeia são provenientes da Rússia, o que torna o mercado europeu mais vulnerável aos desdobramentos da guerra. Apesar do conflito militar estar restrito a dois países, o ocidente trava uma guerra econômica contra Rússia e seus aliados imediatos, o que deve causar sequelas econômicas e geopolíticas duradouras.

    As sanções econômicas que a Rússia enfrenta incluem a remoção de parte do seu sistema bancário do SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunications), implementação de barreiras comerciais e congelamento de bens e de ativos financeiros. Além de tudo, a massiva fuga de capitais e de empresas é um choque extraordinariamente negativo para a economia russa, que já viu sua moeda perder mais de 60% do seu valor frente ao dólar no ano e a taxa de juros subir de 9.5% para 20%. Embora acreditemos que o conflito, da forma como está caracterizado hoje, represente um risco mais atenuado para a perspectiva de crescimento mundial no curto prazo, ele certamente tem reflexos inflacionários desfavoráveis, o que deve influenciar os bancos centrais dos países desenvolvidos frente ao eminente e necessário aperto monetário destas regiões. O que devemos esperar são ciclos mais longos e intensos de altas de juros.

    No Brasil, o período de carnaval fez com que o fechamento dos ativos fosse menos impactado pela eclosão da guerra. Mesmo assim, fica claro que o reflexo no mercado local é distinto dos países desenvolvidos. A escalada dos preços das commodities deve afetar positivamente nossos termos de troca e o desinvestimento de ativos russos nos portfólios mundiais favorece a alocação em Brasil. O fluxo cambial acumulado no ano alcançou 7.8 bilhões de dólares, com forte entrada na conta financeira do balanço de pagamentos deste mês. Por outro lado, o aumento do preço do petróleo impactará negativamente o bolso do consumidor, assim como as restrições à Rússia são capazes de impactar o custo da produção agrícola, dada a dependência brasileira de fertilizantes russos.

    Essas pressões inflacionárias movimentaram discussões no Congresso para atenuar o efeito da alta de preços para o consumidor final. Neste ponto, o presidente da República, Jair Bolsonaro, editou um decreto que reduz o IPI em 25% para quase todos os produtos industrializados, no qual o governo já renunciaria uma receita tributária de R$ 20 bilhões por ano. Discussões sobre medidas para conter a alta nos preços de combustíveis já começaram a aparecer no Planalto e é difícil imaginar que não avancem para mais renúncia fiscal, principalmente em um ano eleitoral. É importante ressaltar que, no cenário inflacionário atual, uma política fiscal excessivamente frouxa demandará uma política monetária excessivamente restritiva, com uma Selic mais alta e por mais tempo. Seguimos acompanhando todos os desdobramentos do conflito geopolítico no Leste Europeu e a nova dinâmica de aperto monetário no mundo, avaliando seus impactos nos mercados globais e doméstico, bem como as direções tomadas no Brasil em reposta à crise, que podem impactar variáveis macroeconômicas relevantes e a trajetória da dívida pública.

  • Carta Mensal – Fevereiro 2022

    “When I hear complaints about less liquidity, I remember there is such a thing as too much liquidity.”

    Paul A. Volcker

    O mês de janeiro foi positivo para o mercado brasileiro e os mercados emergentes em geral. Após quase dois anos de estímulos econômicos sem precedentes, os principais mercados desenvolvidos estão passando pelo início do processo de ajuste de política. Em um mês de forte queda nos países desenvolvidos, o Real e a bolsa local tiveram performance destaque com uma alta de 13% da bolsa em dólar. Neste mês, o fluxo dos investidores estrangeiros foi mais um recorde, registrando uma entrada líquida acima de R$30 bilhões, o que beneficiou Large Caps brasileiras, como bancos e commodities.

    No cenário internacional, a contaminação pela variante Ômicron foi bastante disseminada. Diversos países, mesmo com uma contaminação rápida e elevada, estão relaxando as restrições e passando a tratar a Covid como um problema menor e mais localizado. Por conta da letalidade mais baixa e da imunização natural causada por esta cepa, a pandemia segue impactando cada vez menos os mercados financeiros. A inflação mais alta e disseminada segue preocupando as autoridades monetárias mundialmente. Nos EUA, o Fed adotou um tom mais severo em relação à inflação, indicando que o mercado de trabalho está próximo do pleno emprego e que os setores mais afetados pela pandemia melhoraram muito nos últimos meses. A comunicação mais dura indica que a probabilidade de um ajuste monetário mais rápido e intenso está mais alta. Na Ásia, a economia chinesa segue fragilizada pela desaceleração do setor imobiliário, mas as autoridades estão respondendo com medidas de amparo ao setor e estímulos monetários, que devem impactar a atividade a médio prazo.

    No Brasil, o mês foi tranquilo para os mercados com o recesso parlamentar. A política fiscal segue sob questionamento, com o governo focando cada vez mais em temas eleitoreiros, como a desoneração dos combustíveis e reajustes para o funcionalismo. Do outro lado, a inflação segue pressionada e preocupando o Banco Central. O IPCA-15 de janeiro veio acima do esperado, acumulando 10.42% em doze meses. A composição do índice de preços ao consumidor continua negativa tanto para os componentes mais voláteis como para o núcleo. Os preços de bens industriais ainda estão pressionados e a inflação de serviços segue acelerando.  Neste mês, o COPOM subiu a taxa Selic meta em mais 1.5%, para 10.75%. Com a inflação esperada rodando acima do teto da meta, uma política fiscal desnecessariamente frouxa pode implicar uma política monetária excessivamente restritiva e por mais tempo do que necessário. Ainda assim, os ativos brasileiros já embutem um prêmio de risco tão elevado que, de certa forma, esse risco fiscal já está bem precificado. O massivo fluxo de entrada dos portfólios estrangeiros neste mês não surpreende, haja vista os valuations historicamente baratos combinados com a moeda nacional excessivamente desvalorizada.  Seguimos atentos ao potencial impacto que a reprecificação de juros nos Estados Unidos e outros desenvolvidos pode causar na dinâmica de portfólio dos ativos globais, seu reflexo na disponibilidade de liquidez internacional e, em especial, no preço das commodities.

  • Carta Mensal – Outubro 2021

    “Investment success doesn’t come from buying good things, but rather from buying things well.”

    Howard Marks

    O mês de setembro foi marcado por episódios de aversão a risco no mercado local e internacional. Globalmente, os índices de ações sofreram quedas mais acentuadas, em meio a um movimento de fortalecimento do dólar e aumento dos juros longos, especialmente no mercado americano. Diversos eventos contribuíram para uma volatilidade mais alta do que o usual, como acontecimentos políticos, decisões de autoridades monetárias, choques nos preços da energia e notícias sobre um potencial calote de uma grande incorporadora chinesa.

    O mercado internacional parece estar se dirigindo para um capítulo mais desafiador e negativo do crescimento econômico, após a forte recuperação que se deu com o processo de reabertura de vários países desenvolvidos. Neste mês, os membros do Banco Central dos Estados Unidos deixaram clara a preocupação com efeitos inflacionários mais persistentes, com o chairman Jerome Powell indicando que a diminuição no ritmo de compras de ativos, que provavelmente precede um início das altas de juros, pode começar em novembro e terminar em meados de 2022. A despeito do Coronavírus parecer cada vez mais um capítulo superado nos mercados, o seu legado econômico é problemático. A inflação mundial segue rodando em níveis altos por mais tempo do que se esperava, o que tem uma grande relação com os desequilíbrios na cadeia de bens duráveis e na oferta de trabalho. É esperada uma normalização deste quadro à frente, mas em um ritmo significativamente mais lento do que as autoridades monetárias de diversos países acreditavam, gerando um vetor importante para altas de juros antecipadas.

    Além disso, parte da aversão a risco neste mês veio da China, que está tendo uma forte desalavancagem do seu setor imobiliário após as intervenções regulatórias do governo. Com isso, as dificuldades financeiras da Evergrande, a segunda maior incorporadora do país e detentora de um passivo da ordem de US$ 300 bilhões, viraram manchete. Embora acreditemos que isso não represente um risco parecido com a quebra do Lehman Brothers em 2008, e que um eventual default deverá ser evitado e atenuado pelas autoridades chinesas, o que nos preocupa é a forte desaceleração econômica do país. O setor imobiliário representa um percentual relevante do PIB, das vagas de trabalho e do lucro dos bancos. Outro efeito negativo das intervenções do governo chinês é o risco de racionamento de energia, uma vez que a matriz energética é intensiva em carvão, o que vai de desencontro com o objetivo de atingir as metas de emissão de carbono.

    No Brasil, foi o terceiro mês consecutivo de queda da bolsa. O início de setembro foi marcado por episódios de atrito entre os poderes, o que gerou uma volatilidade adicional nos mercados. O risco fiscal segue se acentuando na medida em que nos aproximamos da eleição, e isso também está cobrando o seu preço. O problema dos precatórios caminha para ser endereçado via PEC, mas surgiram novas pressões políticas para renovar o auxílio emergencial fora do teto de gastos, o que voltou a preocupar os mercados.

    As expectativas inflacionárias para 2022 continuam se deteriorando, com a última leitura do IPCA mostrando diversas fontes de pressão, como preços de energia, bens industriais e serviços. Na sua última reunião, o Banco Central subiu em mais 1% a taxa Selic meta para 6.25%. A comunicação foi clara, no sentido de que o Bacen aumentará a Selic até o nível necessário para instigar a convergência das expectativas inflacionárias para a meta, mas que isso não significa aumentar o ritmo das altas de juros. Com isso, o mercado passou a esperar um ciclo de alta mais longo, com uma Selic final mais alta. Isso aprofunda o desafio fiscal que o país enfrenta, uma vez que teremos menos crescimento com mais inflação em no ano que vem.

    Acreditamos que as correções vistas neste mês têm mais correlação com a mudança no cenário internacional do que no cenário local, uma vez que os preços dos ativos brasileiros já embutiam um grau relevante de pessimismo precificado. Esse processo de correção advém de uma deterioração dos fundamentos, principalmente nos juros, mas o nível já bastante deprimido de preços pode trazer assimetrias interessantes. Quando todos os riscos passam a ser precificados, qualquer alteração positiva de cenário é um grande catalisador para os preços de ativos. Novamente, acreditamos que o cenário atual prescreve paciência e um certo senso de oportunidade para os ativos locais.

  • Carta Mensal – Setembro 2021

    “Em Que Ano Estamos, Marty?”

    “A nossa percepção de que não temos tempo é uma das marcas mais distintas da cultura ocidental moderna”

     Margaret Visser

    O mês de agosto foi marcado por mais uma rodada de aversão a risco no mercado brasileiro. Em grande medida, os ativos locais sofreram com uma correção associada à turbulência política e incertezas fiscais, dois temas que parecem indissociáveis, mas também com uma piora marginal de alguns fundamentos econômicos. As perspectivas inflacionárias seguem se deteriorando, tanto para 2021 como 2022, e as projeções de crescimento estão sofrendo mais uma rodada de revisões para baixo. Na renda fixa, os contratos futuros de juros nominais passaram a precificar uma Selic acima de 8.0% ainda no final deste ano. A performance dos títulos públicos pré-fixados e indexados à inflação, com vencimentos médios e longos, foi negativa. O Ibovespa, que chegou a acumular uma alta anual de 9.9% em junho, voltou a ficar no terreno negativo. O ponto mais curioso deste processo é que os investidores estrangeiros registraram uma entrada líquida de mais de R$ 7 bilhões no mês, enquanto os investidores institucionais locais e pessoas físicas vendiam suas posições na bolsa.

    No cenário internacional, o ritmo da atividade arrefeceu, mas permanece em níveis altos. As bolsas europeia e americana tiveram performance positiva no mês, enquanto a curva de juros americana abriu e o dólar se fortaleceu frente às divisas desenvolvidas. A desaceleração do crescimento global é natural dado o ritmo muito forte de recuperação que foi observado trimestre anterior, além do esgotamento parcial dos impulsos fiscais e efeitos econômicos, embora reduzidos, da variante Delta. O impacto mais notável que essa variante está tendo para os países desenvolvidos está vindo na inflação mais alta, uma vez que há alta dependência por asiáticos nas cadeias produtivas dos países desenvolvidos, o que está causando um desequilíbrio adicional na oferta de produtos. Além disso, a China se tornou um ponto fraco neste processo de recuperação do segundo semestre, com a retirada dos impulsos fiscais e de crédito e intervenções em setores importantes para o PIB. A ideia do Partido Comunista Chinês é reorientar estrategicamente o crescimento do país em torno de outros setores, como inteligência artificial e energia renovável. Em específico, o impacto das intervenções no setor de construção está sendo negativo para preços de commodities metálicas, como o minério de ferro.

    No Brasil, fica cada vez mais claro que as preocupações associadas ao ano eleitoral têm potencial de exacerbar qualquer reação do mercado a novos desafios. Embora exista a perspectiva da nossa dívida bruta fechar o ano abaixo de 80% do PIB e os números de arrecadação federal sigam surpreendendo positivamente, os últimos meses mostraram um mercado preocupado com teto de gastos, em meio a um aumento dos gastos estimados com precatórios e a perspectiva incremento dos gastos com programas sociais. A Câmara aprovou o pedaço mais polêmico e desnecessário da reforma tributária, que trata do imposto de renda, com recepção também negativa por parte do mercado. Embora o projeto ainda deva sofrer alterações no Senado e sua aprovação ainda seja um ponto de interrogação, o projeto atual traz uma redução do IRPJ e do imposto sobre dividendos em relação ao texto inicial. Segundo o Instituto Fiscal Independente (IFI), os moldes atuais da proposta devem gerar uma perda arrecadatória da ordem de quase R$ 30 bilhões só em 2022. Com relação à crise hídrica, o cenário também está mais desafiador. Os últimos três meses foram os mais secos das suas respectivas séries históricas, o que encareceu novamente a bandeira tarifária e instigou o governo a lançar um programa voluntário para economia de energia. Fora o risco de apagões e/ou racionamento, o que dependerá do nível de chuvas dos próximos meses, o efeito da situação atual já é uma inflação um pouco maior e menos crescimento. Dito isso, mesmo com esses desafios, o PIB deve crescer mais de 5.0% ainda neste ano.

    O contexto atual do mercado brasileiro parece bastante adequado para aquele investidor que combina, citando o icônico Charlie Munger, “extrema paciência com extrema capacidade de decisão”. É claro que a dinâmica fundamental do mercado sempre foi trazer fluxos de caixa futuros a valor presente e que, em grande parte, tudo o que ocorreu no mercado brasileiro nos últimos meses reflete a visão hoje “consensual” de que os riscos estão maiores. Tudo isso cobra o seu preço e é um processo natural. No entanto, diferentemente do filme “De Volta para o Futuro”, o mercado não pode entrar na sua máquina do tempo e efetivamente ver o que vai acontecer à frente. Desde o início da pandemia, muitas das premissas com as quais os economistas e agentes de mercado trabalhavam se mostraram bastante voláteis, além de muitas se provarem incorretas. Apesar da nossa grande necessidade de criar narrativas e tentar antecipar o futuro, ainda estamos no ano de 2021, com uma boa perspectiva de recuperação econômica no país, além vários ativos que estão negociando em patamares interessantes, quando olhamos para o longo prazo. Com o nível de ruído que estamos vendo nos noticiários e a volatilidade que estamos vendo nos ativos, é fundamental ter paciência para aproveitar as oportunidades que poderão surgir.

     

  • Carta Mensal – Junho 2021

    O Brasil e a Filosofia dos Copos

    “O tempo é um ponto de vista”

    Mário Quintana

    O ano de 2021 está sendo para lá de emocionante. No mercado local, enfrentamos um primeiro trimestre recheado de desafios: aceleração da inflação, piora da pandemia e um ambiente político ainda mais tumultuado do que o normal. Repentinamente, tivemos uma avalanche de notícias negativas, sucessivas quedas nas projeções de crescimento, os juros futuros passaram a precificar uma alta ainda mais rápida da Selic e o dólar chegou a bater R$ 5,84. Curiosamente, dois meses após esse circo que parecia pegar fogo de forma ininterrupta, os ativos locais engataram uma sequência positiva, com a bolsa brasileira renovando a máxima histórica e o real zerando suas perdas contra o dólar no ano. A bipolaridade do noticiário financeiro as vezes é caricata: em pouco mais de sessenta dias o Brasil à la Venezuela virou o “Brasil-Suíça”. A guerra entre os fundamentos e preços, natural do mercado no curto prazo, e a noção humana de continuidade são fatores que acabam contribuindo para visões que enxergam o mesmo copo sempre mais cheio ou mais vazio do que ele é.

    Neste mês, a MP da Capitalização da Eletrobrás foi aprovada na Câmara, a Reforma Administrativa foi admitida pela CCJ e a Reforma Tributária segue avançando com a estratégia do fatiamento, o que deve dar prioridade para a o projeto de reformulação dos impostos federais. Os pormenores das reformas e a sua velocidade em geral estão bem longe do ideal, mas a sinalização da continuidade da agenda do governo é fundamental para  instigar confiança nos agentes de mercado. Considerando o ambiente ainda incerto com relação à pandemia, a queda na popularidade do governo, o fluxo de notícias da CPI da Covid e uma eleição que promete ser complicada, é difícil imaginar mais do que essas reformas que já estão no radar.

    O primeiro trimestre trouxe surpresas positivas para o crescimento. A mediana das projeções para o PIB do primeiro trimestre, apuradas na Bloomberg, chegou a estimar uma queda de 0,2% e estava estimando uma alta de 0,8% até antes da divulgação do indicador. O PIB cresceu 1,2% contra os três últimos meses do ano passado, puxado pela agropecuária (5,7%), indústria (0,7%) e serviços (0,4%). Mesmo com o esgotamento do auxílio emergencial e o impacto das novas restrições à mobilidade, o consumo das famílias caiu apenas 0,1% no período e o investimento cresceu a uma taxa anual de 17%, a maior desde o segundo trimestre 2010. Diversos fatores parecem ter contribuído para a surpresa positiva, como a alta no preço das commodities, reposição de estoques industriais, o alto nível poupança acumulada.

    A inflação segue pressionada pelos preços de bens, principalmente os de alimentos e bens industriais. O IPCA de maio acumulou 8,06% em 12 meses, enquanto o IGP-M acumulou 37,04% no mesmo período. As expectativas de inflação implícitas nos preços de mercado e no relatório Focus seguem uma trajetória de alta, inclusive para o ano de 2022, que é o mais importante para o Banco Central à luz da política monetária. O Banco Central continua com a narrativa dos choques temporários para os dados de inflação e segue prescrevendo uma normalização parcial da Selic. A narrativa da inflação transitória parece fazer sentido, uma vez que o setor de bens segue capturando  o impacto da postergação do consumo em serviços e das políticas econômicas estimulativas. Além disso, a inflação compara os preços correntes com os preços do ano passado, quando a economia estava no auge de uma paralisação deflacionária. Por outro lado, esse tipo de narrativa tem seus riscos. Diversos episódios históricos, especialmente nos emergentes, nos mostram que geralmente não é uma boa decisão ignorar por muito tempo os “fatores transitórios” e os riscos que eles podem carregar na contaminação de expectativas e de outros preços. Hoje, o mercado precifica nos contratos de DI futuro que o COPOM prosseguirá com a normalização completa da taxa Selic até 6,5% no final do ano, diferentemente do que está sendo comunicado pelo comitê até agora.

    A janela apreciativa do real versus o dólar, amparada pela melhora no diferencial de juros, nos dados de crescimento, nos fluxos comerciais e percepção de risco, pode contribuir para um alívio na inflação dos bens comercializáveis. Outros fatores carregam riscos altistas, como o baixo nível de chuvas, que pode afetar preços de energia e também recair sobre os bens industriais. A última ata do COPOM menciona o aumento da bandeira tarifária de energia elétrica como um fator de pressão para a inflação no curto prazo, embora ressalte que o choque também deve ser temporário.

    Com essa dinâmica de crescimento e inflação, os dados fiscais do país guardaram surpresas positivas: o endividamento bruto caiu de 88,99% do PIB para 86,66%  em abril, e a arrecadação federal cresceu 13,62% em relação aos primeiros quatro meses do ano passado, em termos reais. Em suma, os últimos meses mostraram que a agenda de reformas está andando, e que provavelmente teremos mais inflação e mais crescimento, tudo o mais constante. Esses dois vetores compram mais tempo no lado fiscal.

    Essa janela de crescimento é positiva, mas está longe de resolver o problema de longo prazo do país, que demanda reformas mais estruturais. Nosso estoque da dívida está alto versus os nossos pares, e não pode mais continuar a crescer acima da inflação e do crescimento do país de forma consistente. Além disso, não mais contaremos com a demografia jogando a nosso favor;  foi uma janela de oportunidade perdida dentro da nossa história econômica. Entre os anos de 2000 a 2010, nosso PIB real cresceu a uma taxa anualizada de 4,13%. De 2010 para 2020, essa taxa caiu para 0,27% ao ano. Para virarmos um país do copo meio cheio, de fato, é necessário mudar o setup da economia: aumentar a produtividade, simplificar o sistema tributário, melhorar o ambiente de negócios, reabrir a economia, toda a agenda de longo prazo necessária para termos crescimento sustentável.

     

     

     

     

     

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