Carta Mensal

  • Eleições Americanas II


    A eleição norte-americana é, sem dúvida, um assunto que poderíamos discorrer abordando diversas frentes. Após trazermos o funcionamento do pleito, assim como, uma breve apresentação dos candidatos e o que cada um pensa em questões chave, pensamos em dar uma continuação, já que ela será, tudo indica, a mais controversa de todos os tempos.

    Gráfico de intenção de votos segundo o site RealClearPolitics.

    Elaboração: Taler

    Eleições no radar dos investidores

    Já foi citado e não precisamos repetir o peso que um evento como esse possui nos mercados. Segundo o jornal Valor Economico, uma pesquisa global realizada pelo Grupo deVere, uma das maiores organizações independentes de consultoria financeira do mundo, perguntou a mais de 700 clientes: “Qual é a sua maior preocupação de investimento para o resto de 2020?” 72% dos entrevistados disseram que uma eleição contestada dos EUA é o maior risco. Em segundo lugar, o impacto de uma segunda onda de covid-19 foi mencionado 18% e, por fim, a guerra comercial EUA-China, com 5%. Os 5% restantes foram compostos por outras questões geopolíticas, como o Brexit.

    Calendário

    Já apresentamos as principais diferenças entre a eleição nos EUA e no Brasil. Por isso, não vamos entrar novamente nelas. Mas destacamos que a principal diferença é que a eleição lá é no esquema “winner takes all”, ou seja, se o candidato ganhou por 1 voto em certo estado ele leva todos delegados correspondentes e não sua proporcionalidade.

    Outro ponto de diferença marcante é que nos EUA os votos não acontecem apenas no dia da eleição, como no Brasil. Mas por lá, por o voto não ser obrigatório, a votação começa bem antes.

    A partir de setembro, os eleitores podem visitar um local de votação ou votar por carta. Para essa eleição a expectativa é que até 70 milhões de pessoas votem pelos correios, um número 3 vezes superior quando comparado às eleições de 2016. Para se ter uma ideia de quão relevante é esse número, isso é representa quase metade dos cidadãos aptos a escolher seus representantes.

    Mas votar pelo correio não é tao simples em todo país e funciona de maneira diferente dependendo do estado. Podemos separar o modo como é feito em 3 maneiras:

    a) Como e quem pode votar: todos os estados americanos permitem. Mas ao mesmo tempo, cada um deles pode ter sua própria regra eleitoral. Nove estados enviam células para todos os eleitores automaticamente, sem requerimento prévio. Nos outros 41 é preciso solicitá-las, sendo que em 5 deles é pedido uma justificativa para votar à distância. Não há custos para o envio. Mas alguns estados tornam a experiência um pouco mais difícil, adicionando burocracias;

    b) Prazos: em alguns estados, como em Indiana, é preciso pedir a célula com no mínimo 2 semanas de antecedência do pleito, já em outros, como Ohio, por exemplo, isso pode ser feito em até 3 dias;

    c) Apuração: da mesma forma, cada um dos estados tem seu prazo e forma. A Flórida, para exemplificar, inicia a contagem 22 dias antes da eleição, Colorado 15 dias antes, Arizona 2 semanas antes. Seis deles, no entanto, não permitem a contagem antes do dia oficial (Pensilvânia, Wisconsin, Dakota do Sul, Wyoming, Mississípi e Alabama), o que pode significar que o resultado pode demorar a sair por mais de 1 semana;

    Além disso teremos debates, não só dos presidenciáveis, mas também dos vices.


    Primeiro debate dos Presidenciáveis

    Ocorreu no dia 29 do mês passado. Foi vergonhoso e pouco proveitoso para os eleitores tomarem algum tipo de decisão. Marcado por troca de acusações e constantes interrupções por parte do republicano, que obrigaram o mediador a intervir em mais de uma ocasião.

    Joe Biden, conhecido pela dificuldade na oratória, estava sob escrutínio. Segundo a mídia especializada, seu desempenho foi em linha com o esperado. O democrata usou palavras pesadas como ‘cale a boca’, ‘palhaço’ e ‘racista’ numa tentativa de interromper os ataques do republicano.

    Biden atacou o presidente sobre temas relevantes e polémicos, como o modo como lidou com a pandemia, tentativas de derrubar o Obamacare e falha ao apresentar propostas alternativas para eles.Já Trump assumiu postura mais agressiva, se utilizando das interrupções para mudar o foco do debate quando conveniente. Em geral, o presidente buscou associar Biden à ala “radical” e “socialista” do partido democrata e soube pressionar seu adversário sobre temas como os negócios no exterior de seu filho, Hunter Biden.

    Debate dos vices

    debate entre Kamala Harris e Mike Pence na noite do dia 7/10 foi marcado pela cordialidade entre os candidatos à vice-presidência dos Estados Unidos, tom bem diferente do clima acalorado entre Donald Trump e Joe Biden no primeiro debate.

    Ambos são potenciais candidatos à presidência para as eleições de 2024. Donald Trump não poderá concorrer a um terceiro mandato, enquanto Biden, com 82 anos no próximo pleito, já adiantou a possibilidade de não ser candidato à reeleição.

    Kamala chamou o modo como Trump lidou com a pandemia de “o maior fracasso”. Também destacou que caso Trump recomendasse uma vacina ela não a tomaria. Afirmação prontamente rebatida por Pence, que disse: “pare de fazer jogos políticos com a vida dos americanos”. Impostos foi outro ponto bastante explorado por ambos, com o vice de Trump acusando Biden de tributar ainda mais os americanos.

    A guerra comercial sino-americana também foi muito debatida. De um lado Pence acusou Biden de associação com o Comunismo, de outro Harris disse que a guerra acelerada por Trump custou centenas de milhares de desempregos nos EUA.

    Outro ponto bastante polemico foi a vaga na Suprema Corte, onde Trump indicou a juíza Amy Coney Barrett. Pence, lógico, defendeu a iniciativa. Já Harris, disse que o mais sensato seria o próximo presidente tomar essa decisão.

    Segundo a rede de notícias CNN, Kamala Harris se saiu melhor no debate.

    Por que essa vaga na Suprema Corte é tão polêmica?

    Até então, a Suprema Corte americana era formada por nove juízes, sendo 5 conservadores e 4 progressistas. Com o falecimento de Ruth Ginsburg, Donald Trump correu para indicar a nova sucessora e o nome cogitado foi de Amy Barret, conhecida pelo conservadorismo em suas decisões, o que manteria a atual divisão. Com sua posse, 6 dos nove juízes consolidará uma maioria indicada por Republicanos.

    É com essa maioria que Donald Trump espera que se saia vitorioso em temas que seriam decididos pela Corte. Alguns deles bastante polêmicos. Entre os principais:

    • Obamacare: Trump é contra. Ele espera que a Suprema Corte anule esse texto;
    • Aborto: Trump, que defendeu o direito das mulheres ao aborto no passado, agora se opõe à prática, uma questão muito importante para eleitores da direita religiosa;
    • Posse de armas: Trump prometeu proteger a Segunda Emenda à Constituição, que muitos americanos interpretam como garantia ao direito de adquirir e portar armas;
    • Eleições: com suas denuncias, sem provas, que o voto por correspondência pode ser objeto de fraude, uma possível disputa eleitoral pode precisar ser resolvida na Corte;

    Não só o salão oval está em jogo

    Abordamos com frequência quem será o próximo presidente, mas sabemos que ele não governa sozinho. Ele precisa de apoio do congresso, formado pelo Câmara dos Representantes (Camara dos deputados) e pelo Senado.

    Com isso, está em jogo todas as 435 cadeiras da Camara e 35 das 100 posições do Senado.

    De acordo com as mais recentes pesquisas divulgadas, há 99% de chance de os Democratas possuírem maioria na camara dos representantes, com uma representatividade que pode variar entre 50-56% do total. Ou seja, os democratas podem ficar com entre 220 e 262 posições.

    Já no Senado, atualmente controlado pelos Republicanos, das 100 cadeiras existentes, 45 são Democratas, 53 Republicanos e 2 são independentes. Das 35 vagas em disputa, 12 são Democratas e os 23 restantes são Republicanos. Quando se iniciaram as pesquisas, era praticamente dado como certo se manter a maioria Republicana na casa.

    Os números atuais não estão tão altos a favor dos Democratas como estão na Camara, mas ainda sim bastante expressivos. As últimas pesquisas mostram em torno de 70% de chance de ficarem entre 47-57 cadeiras e, assim, assumir a maioria também.

    Quais as consequências?

    Excluindo os fatores chaves que abordamos no relatório passado, pontos que poderiam afetar mais o dia-a-dia dos cidadãos, podemos abordar 3 fatores com impactos significativos.

    a) Eleição contestada: como descrevemos acima, há uma confusão na maneira como funciona a votação pelos correios, pelo menos 300 ações judicias já questionam aspectos dela. Os processos vêm dos dois lados, democrata e republicano, mas, com certeza, por motivos diferentes. Pesquisas mostram que mais democratas vão votar pelos correios esse ano. Os republicanos, por sua vez, tentam restringir essa maneira de votar, alegando possíveis fraudes. Não há indícios de fraudes consideráveis na história das eleições americanas e nem que possa acontecer dessa vez.

    Esse questionamento republicano tem uma razão bem forte. Como mais democratas já afirmaram sua preferência de votar de maneira remota, o que pode acontecer é que no início da contagem Donald Trump possa aparecer na dianteira e que essa liderança desapareça nos dias seguintes, conforme os votos que foram enviados pelos correios comecem a ser apurados (blue shift). Esse fenómeno é chamado pela imprensa de “miragem vermelha”. Isso acabaria sendo o maior temor dos analistas. Trump poderia usar essa liderança parcial e posterior perda como argumento de fraude e, assim, adicionar mais incerteza e, consequentemente, volatilidade.

    b) Formação do Congresso e possíveis apoios: Na média de opiniões de analistas uma vitória de Biden em novembro com os democratas reconquistando o controle do Senado pode resultar em um grande aumento nos impostos e nos gastos federais, junto com uma mudança nas políticas de saúde, regulatórias e comerciais.

    A maior divisão entre os dois candidatos é sobre impostos e gastos. Biden apoia medidas que, se aprovadas na íntegra, aumentariam as receitas e despesas federais em mais de US$ 4 trilhões, ou 10% em relação aos níveis pré-pandêmicos, segundo cálculos da Capital Economics.

    No cenário com Trump vencendo a reeleição, e os republicanos se mantendo no Senado, ajudaria nas aprovações de suas propostas. Suas chances de reconquistar a Câmara parecem cada vez menores, o que deixaria o Congresso dividido. Ao contrário de Biden, Trump expressou apoio a outra rodada de cortes de impostos.

    Qualquer uma das propostas exigiria controle total do Congresso para avançar. Embora seus planos impliquem um tamanho muito diferente do governo federal nos próximos anos, é improvável que isso importe muito para as perspectivas econômicas, porque sob qualquer um dos candidatos a política fiscal permaneceria acomodatícia.

    c) Impactos nos mercados: Tudo isso pode ter influência sobre o desempenho do mercado de ações, mas, com a política fiscal e monetária permanecendo frouxa não importando quem vença, a eleição pode ter um impacto secundário sobre as perspectivas de crescimento econômico para os próximos anos.

    Em resumo, ambas as agendas possuem pontos positivos e negativos:

    • Do presidente Trump inclui: aspectos positivos como impostos corporativos baixos, menos regulação governamental e projetos de infraestrutura; e aspectos negativos como mais incerteza em relação a tratados comerciais e a China;
    • Do candidato Biden: aspectos positivos, como a redução da desigualdade de renda, a promoção da energia limpa, gastos com infraestrutura e mais previsibilidade com relação à política comercial e a China; e aspectos negativos, como um aumento nos impostos corporativos e mais regulação governamental;

    E a China?

    Talvez essa possa ser a principal questão para a economia global. Joe Biden, possivelmente, adotaria uma abordagem menos agressiva, mas não impediria uma maior dissociação com a China.

    Segundo a Capital Economics, a distância que se formou entre a China e os EUA foi causado pelo surgimento da China como um competidor geopolítico dos EUA, e não pela personalidade de Donald Trump em si. A pandemia apenas reforçou a ênfase do país asiático em seu modelo liderado pelo Estado, focado na promoção da inovação doméstica. Portanto, sob qualquer um dos candidatos, a guerra “comercial” provavelmente se espalhará para novos limites no acesso ao mercado e fluxos de tecnologia (e possivelmente finanças).

    No entanto, Biden provavelmente adotaria uma abordagem diferente para lidar com a ameaça da China. Em particular, sua ênfase seria na construção de uma coalizão de aliados para resistir as investidas chinesa. Isso poderia ajudar a fortalecer as relações dos EUA com a Europa em particular, e a dar um novo fôlego ao multilateralismo.

    No fim das contas:

    Independentemente de quem assuma a Casa Branca e da composição do Congresso em janeiro de 2021, uma recuperação econômica gradual e o apoio contínuo do FED aos mercados financeiros podem significar que as perspectivas para as ações dos EUA são promissoras.

     

    Referências Bibliográficas

    https://www.capitaleconomics.com/us-election-2020/

    https://www.cnbc.com/elections/

    https://www.nytimes.com/interactive/2019/us/elections/2020-presidential-election-calendar.html

    https://projects.economist.com/us-2020-forecast/house

    https://valor.globo.com/wall-concurrence/?next=https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/09/29/eleicao-nos-eua-entra-de-vez-no-radar-do-investidor.ghtml

    https://valor.globo.com/financas/coluna/implicacoes-da-eleicao-nos-eua-para-os-investimentos.ghtml

    https://projects.fivethirtyeight.com/polls/president-general/national/

    https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/10/06/numero-recorde-de-eleitores-vai-votar-pelo-correio-nos-eua-em-2020.ghtml

    https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2020/10/08/covid-19-e-trump-dominam-debate-entre-candidatos-a-vice-presidencia-dos-eua?utm_source=CNN+Brasil+Newsletter&utm_campaign=36b23e0126-NEWSLETTER-5-FATOS_COPY_01&utm_medium=email&utm_term=0_8f0e69a1e0-36b23e0126-346166944

    https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,para-entender-temas-que-sao-debatidos-na-suprema-corte-dos-eua,70003451520

  • Carta Mensal Taler – Outubro 2020

    “Eu queria um final perfeito. Agora eu aprendi, da maneira mais difícil, que alguns poemas não rimam e algumas histórias não têm um começo, meio e fim claros.”

     Gilda Radner

    O mês de setembro foi marcado por mais uma onda de desconfiança no mercado local. A sinalização de ruptura com a agenda de consolidação fiscal contribuiu para o cenário de aumento nos prêmios de risco e queda do Ibovespa. No âmbito internacional, os mercados também foram tomados por um movimento significativo de correção. Os indicadores de atividade começaram a sinalizar um arrefecimento do ritmo de recuperação. Enquanto os EUA enfrentam dificuldades políticas para estender o pacote de estímulos em um contexto eleitoral, a Zona do Euro enfrenta uma segunda onda de Covid-19 que, apesar de menos letal, apresentou taxas de contaminação elevadas e já respingou no setor de serviços.

    No Brasil, os indicadores continuam a sinalizar um bom ritmo de recuperação da atividade e a pandemia continua a diminuir de tamanho, embora Manaus esteja sinalizando a vinda de uma 2ª onda menos letal. A agenda política voltou a afetar negativamente a performance dos mercados. O destaque do mês foram as discussões relativas ao novo programa assistencial do governo, o Renda Cidadã, que deve dobrar o tamanho do Bolsa Família. Para financiar o programa, o Governo descartou as discussões de cortes de despesas e propôs a liberação de cerca de R$ 39 Bi do orçamento em 2021 por meio da postergação do pagamento de precatórios e uso de uma parcela dos recursos do novo Fundeb.

    Esta manobra, vista como uma medida para driblar o teto de gastos, foi mal percebida pelo mercado e levou a uma deterioração nos preços de ativos de renda variável e renda fixa. O Ibovespa teve o segundo mês seguido de queda (4,8%), acumulando uma baixa anual de 18,2%. Nos mercados de renda fixa, o contrato futuro de 10 anos para a taxa DI subiu de 7,40% para 8,0%; enquanto o índice IMA-B cedeu 1,51% no mês. A inclinação nas curvas de juros fragilizou ainda mais a situação do Tesouro Nacional, que está sendo obrigado a fazer emissões com volumes extraordinários e vencimentos mais curtos.

    Outro movimento de atenção no mês foram as sucessivas marcações negativas no mercado secundário de LFT’s (Tesouro Selic), algo que não acontecia há 18 anos. As consecutivas reduções da taxa Selic e o aumento da necessidade de financiamento do setor público, principalmente no curto prazo, geraram impactos diretos nos preços.

    A sinalização negativa na agenda de reformas levou o Banco Central a adotar um tom mais rígido com a situação fiscal do país, o que implicaria em um ciclo precoce de alta nas taxas de juros. Aparentemente, as respostas negativas foram suficientes para postergar o programa social do Governo para um período mais próximo das eleições nacionais. No entanto, a agenda fiscal é de difícil resolução, visto que já carregávamos uma situação fiscal frágil antes da crise e optamos por adotar um nível de estímulo desproporcional ao dos nossos pares no mundo.

    Nos Estados Unidos, a eleição tem de tudo para ser turbulenta, assim como estão sendo os debates entre os candidatos. As pesquisas de intenção a nível nacional seguem mostrando Biden na frente, inclusive com uma boa margem em alguns dos chamados “Swing States”, estados com baixo grau de fidelidade a um único partido e que geralmente decidem as eleições americanas. Caso o candidato democrata seja eleito, provavelmente teríamos um aumento dos impostos corporativos, mas o ponto focal ainda é o controle das casas legislativas. Um controle Democrata no Senado poderia mudar a dinâmica de um eventual governo Biden e abrir espaço para a ala mais anti-mercado do partido, o que poderia gerar um cenário de maior estresse. Além disso, se derrotado, Trump provavelmente deve contestar a eleição via correios com o precedente de Bush Vs Gore (2000), o que atrasaria o resultado das eleições e acrescentaria volatilidade aos mercados.

    As principais economias europeias tiveram um notável ressurgimento das infecções por SARS-COV-2, porém com uma taxa de letalidade menor do que o surto anterior. Os melhores protocolos de saúde e maior conhecimento sobre a prevenção da doença podem ter contribuído para a evolução mais contida das hospitalizações. Além disso, as autoridades sinalizaram que não devem adotar medidas de restrição a nível nacional. No entanto, ainda não é certo o impacto que a recaída da pandemia pode ter sobre a recuperação, principalmente se o surto instigar o isolamento voluntário da população. A última minuta do Banco Central Europeu (ECB) sinalizou maior preocupação com relação ao cumprimento da meta inflacionária e a apreciação recente do Euro, o que sugere uma prorrogação no programa de compras emergenciais de ativos (PEEP).

    Dados os desafios para o ritmo de recuperação da economia global, agenda doméstica incerta, e eleições que devem ser conturbadas nos EUA, provavelmente teremos um final de ano com alta volatilidade. As medidas de distanciamento da pandemia e os estímulos sem precedentes causaram o choque mais profundo e a recuperação mais rápida do Pós-Guerra. A volta veloz dos mercados em meio à liquidez abundante parecia sugerir um cenário de recuperação relativamente rápido e certo. No entanto, os últimos meses e a própria História nos mostram que nada é tão fácil ou simples quanto se parece. Seguimos atentos à pandemia e suas implicações de médio prazo, aos indicadores de atividade e ao cenário fiscal brasileiro, que é digno de especial atenção nos próximos meses.

  • Carta Mensal Taler – Setembro 2020

    O Cobertor Nunca foi Tão Curto

     “A primeira lei da economia é a escassez. E a primeira lei da política é ignorar a primeira lei da economia”

    Thomas Sowell

    No mês de agosto, o mercado brasileiro sofreu com a alta volatilidade decorrente da fraqueza na situação fiscal e preocupações políticas, o que contribuiu para certa descorrelação entre ativos domésticos e ativos no exterior.  O fantasma do desequilíbrio fiscal favoreceu a aversão a risco nos mercados, levando a cotação do dólar a fechar o mês em R$ 5.49, a bolsa a perder a marca dos 100 mil pontos e a uma forte alta nas curvas de juros futuros.

    Com a bandeira do auxílio emergencial e a popularidade em alta nos grupos de baixa renda, o Presidente abriu espaço para discussão da agenda social, representada pelo Programa Renda Brasil, e para a vertente do governo que demanda mais investimento em obras públicas, o que ameaçou o teto de gastos. Houve uma debandada no segundo escalão da equipe econômica, com saída de Salim Mattar e Paulo Uebel, e especulações sobre uma potencial saída do Ministro Paulo Guedes. O legislativo contribuiu para o ceticismo fiscal, após uma tentativa do Senado de derrubar o veto presidencial aos reajustes salariais no funcionalismo público; situação que foi contida pela articulação na Câmara, com protagonismo de Rodrigo Maia.

    Após uma crise de identidade no governo e a reação negativa do mercado, o Presidente deu declarações junto ao Ministro Guedes reforçando o alinhamento entre ambos e o compromisso com o teto de gastos, mas sem abandonar as demandas da agenda social ou investimentos públicos, para a qual a equipe econômica deverá encontrar espaço dentro do teto. O auxílio emergencial foi prorrogado até o final deste ano, em quatro parcelas do benefício de trezentos reais. Isso acumulará cerca de 100 bilhões ao rombo fiscal de 2020 e mais 1.3 pontos percentuais ao déficit primário, que já é maior do que a média dos países desenvolvidos e acumula 7.48% do PIB em 12 meses. O resultado nominal do setor público acumula um déficit de 12.19% do PIB em 12 meses.

    O PIB do 2º trimestre foi muito afetado pelas medidas de distanciamento e teve uma queda pior o que o esperado (9.7%). Por outro lado, os dados de maior frequência já apontam para uma recuperação forte nas vendas no varejo e produção industrial, enquanto o setor de serviços, que representa cerca de 2/3 do PIB, está voltando mais lentamente. O impacto dos estímulos fiscais e o efeito substituição, que vem da queda do consumo em serviços, parece ter criado uma recuperação relativamente rápida, embora heterogênea entre os setores, o que implica consequências negativas para o desemprego no Brasil, visto que o setor de serviços possui participação importante na geração de empregos. O COPOM optou por renovar a mínima da Selic para 2%, consolidando um ciclo que acumula 12.25 pontos percentuais de queda, desde agosto de 2016.  O IGP-M continuou a descolar significativamente do IPCA, impactado por componentes associados ao ciclo externo e ao dólar, como o minério de ferro, mas também por uma pressão dos preços de alimentos no atacado, com um certo grau de repasse ao consumidor. Embora a inflação de serviços siga deprimida, o cenário acrescenta riscos adicionais à próxima decisão de política monetária, que pode frear o ciclo de cortes.

    No cenário externo, as principais economias do mundo continuaram uma recuperação heterogênea e com sinais ambíguos nos índices de confiança, evidenciando a dependência dos estímulos fiscais e monetários neste processo de retomada. Entre todos os países, a China vem mostrando claramente uma recuperação mais vigorosa, principalmente no setor industrial. O destaque do mês foi o simpósio anual de Jackson Hole, onde os representantes do Fed comunicaram a adoção de um novo paradigma de política monetária, com meta de 2% na média. Isso indica que os americanos serão reativos às pressões inflacionárias, o que deve defasar o ciclo de normalização nos países desenvolvidos e dar suporte a um panorama de juros baixos por mais tempo no mundo.

    A Índia tornou-se o novo epicentro de coronavírus, enquanto a contaminação caiu nos EUA e lentamente dá sinais de queda no Brasil. Na Europa, as principais economias voltaram a ter elevações nas suas taxas de contaminação, em especial na França e na Espanha, mas com um número de mortes contido. Quanto a uma eventual vacina, continua improvável uma solução que envolva vacinação a nível global antes da primeira metade de 2021, muito embora alguns países estejam passando por cima de protocolos de segurança para tentar acelerar o processo.

    Mesmo com a atividade econômica mostrando uma recuperação mais vigorosa do que o esperado, muitas incertezas persistem com relação à efetiva duração da pandemia e o impacto de médio prazo nos setores mais afetados e no mercado de trabalho brasileiro. A extensão do auxílio emergencial até o final do ano via Medida Provisória afastou, por hora, a criação de gastos sociais permanentes sem vinculação de receita. Desta forma, o governo avançou na reforma administrativa, que não afetará os servidores atuais, e aprovou com boa margem as alterações regulatórias no mercado de gás, vitória pessoal de Guedes, defensor da pauta desde o início da campanha.

    Os sinais foram positivos e o risco país voltou a níveis próximos aos do início da pandemia. A dívida bruta brasileira como percentual do PIB chegou a 86.5% em julho e deve fechar o ano com um valor próximo de 100%. Sendo o Brasil um país emergente de crescimento relativo baixo, histórico inflacionário e um problema fiscal que cresce há 30 anos, não há muita margem para abandonar as medidas de responsabilidade fiscal e as reformas urgentes do Ministério da Economia para focar em outras pastas.

    A situação fiscal está longe de ser resolvida e o único jeito de evitar respostas ruins do mercado é sinalizar que a trajetória futura da dívida não será explosiva. As medidas fiscais foram uma clara opção de salvamento aos empregos e à economia, mas elas vieram às custas de uma situação fiscal extremamente delicada; o cobertor nunca foi tão curto. Seguimos atentos aos desenvolvimentos da pandemia, aos dados econômicos e às sinalizações do governo para responder aos riscos de forma proativa e aproveitar eventuais oportunidades.

  • Retorno das Atividades

    Clientes, parceiros e amigos, esperamos que estejam todos bem, com saúde.

    Logo no início da pandemia, em 16 de março, criamos um comitê para implementar o plano de contingência para COVID 19, com o objetivo de atender às necessidades dos clientes e preservar nosso bem mais valioso: a saúde de todos.

    O alto investimento em tecnologia nos últimos anos, nos garantiu a tranquilidade e a segurança para seguir com a operação 100% remota por meio da plataforma digital Taler. A eficiência do novo modelo de gestão aliada à rápida adaptação dos nossos advisors ao sistema de home office, nos permite sermos ainda mais cautelosos nas medidas de prevenção.

    Em setembro, entramos no estágio de reabertura dos escritórios
    no Brasil, tomando os seguintes cuidados:

    • Realizando semanalmente a sanitização completa dos ambientes com empresa especializada e certificada;
    • Reforçando a higienização diária de pisos, portas, superfícies e aparelhos;
    • Fazendo a medição de temperatura na entrada e na saída de todos;
    • Disponibilizando máscaras descartáveis e álcool em gel nas estações de trabalho e salas de reunião;
    • Adotando sistema de rodízio para atendimento presencial aos clientes, diminuindo ao máximo o fluxo no escritório.

    Para a segurança de todos, continuamos priorizando reuniões em plataformas digitais e incentivando o trabalho remoto. Contamos com sua compreensão.

    Fique à vontade para entrar em contato e esclarecer suas dúvidas sobre os novos procedimentos.

     

    Taler 15 anos. Cuidando do que tem valor para você.

  • Eleições Americanas

    A eleição norte-americana é, invariavelmente, o evento político mais aguardado
    e acompanhado do planeta, tanto por sua relevância, quanto seus impactos em diversas
    frentes. Por essa razão, decidimos construir um compilado explicando o funcionamento
    do pleito, assim como, as principais ideias dos candidatos em temas diversos, sem realizar
    juízo de valor. A ideia aqui é discorrer sobre um assunto complexo de forma simples.

    Como funciona?

    Para se candidatar à Presidência nos Estados Unidos é preciso ter mais de 35 anos de idade,
    ser nascido nos EUA e viver lá por ao menos 14 anos.

    Os EUA possuem aproximadamente 330 milhões de habitantes. Como o voto não
    é obrigatório, somente 129 milhões de pessoas se registraram para votar na última eleição.
    As eleições geralmente ocorrem no mês de novembro, sendo que para esse ano estão
    programadas para iniciar no dia 03.

    Eleições Primárias

    Primeiro os eleitores escolhem os candidatos à Presidência de cada partido. Existem
    diversos nos EUA. Porém, dois elegem mais presidentes, são eles: O Democratas (Azuis)
    e os Republicanos (Vermelhos).

    Existem dois tipos de eleições primárias, as abertas e fechadas. Nos dois principais partidos,
    (Democrata e Republicano), existem dois mecanismos que são utilizados: primárias
    e caucus. As primárias constituem eleições onde os eleitores votam em “delegados
    compromissados”, ou seja, pessoas que se comprometem a votar em determinado
    pré-candidato. No caucus as pessoas se reúnem (em casas, escolas, bibliotecas, igrejas etc)
    e debatem quem é o melhor pré-candidato para defender suas ideais e escolhem delegados
    de bairro que se alinham com o pré-candidato de sua preferência.

    As prévias começam bem antes das eleições e o candidato escolhido é confirmado
    nas Convenções Partidárias.

    Colégios Eleitorais
    Como destacado acima, nos Estados Unidos, o povo não vota diretamente em seu
    candidato à Presidência da República. A população decide quem vai escolher o seu líder,
    os chamados delegados.

    Relativo ao número de habitantes há um número de delegados em cada estado. Sendo
    assim, quanto mais populoso, maior o número de delegados. Dessa maneira, é constituído
    o Colégio Eleitoral estadual, que deve ter, no mínimo, três delegados. Foi a Constituição,
    em 1787, que instituiu a autonomia dos Estados. Cada um dos 50 existentes nos EUA decide
    como escolherá seus delegados (se os eleitores devem ser filiados ou não aos partidos,
    por exemplo).

    Ao todo, existem 538 delegados que fazem parte do Colégio Eleitoral. Vence o pleito o
    candidato que somar 50% mais 1 dos votos dos delegados (271). Por mais que o candidato
    receba votos populares, o mais importante é ter votos desse Colégio.

    Na grande maioria das vezes, o Colégio Eleitoral segue a tendência da população.
    Porém, por cinco vezes², os delegados optaram por um candidato não escolhido pelo voto
    popular. O Estado com o maior número de delegados é a Califórnia, que possui 40 milhões
    de habitantes e 55 delegados. A vitória na Califórnia representa conquistar 10% dos votos
    de todos os delegados do país.

    Notas

    ¹ Caucuses são reuniões privadas dirigidas por partidos políticos. Eles são mantidos em nível
    de condado, distrito ou nacional. Na maioria, os participantes se dividem em grupos de
    acordo com o candidato que apoiam. Os eleitores indecisos formam seu próprio grupo.
    Cada grupo faz discursos de apoio ao candidato e tenta fazer com que outros se juntem
    ao seu grupo. No final, o número de eleitores em cada grupo determina quantos delegados
    cada candidato ganhou.

    ² É possível ganhar o Colégio Eleitoral, mas perder o voto popular. Isso aconteceu em 2016,
    em 2000 e três vezes em 1800. Donald Trump venceu Hillary Clinton perdendo no voto
    popular, 62,9 milhões vs 65,8 milhões de votos, respectivamente.

    ³ https://amers1.apps.cp.thomsonreuters.com/web/apps/newsservices/mediaProxy?apiKey=24afa7d8-4c90-4700-8b2e-b5b1ce7d5b16&url=https%3A%2F%2Fgraphics.reuters.com%2FUSA-ELECTION%2FPOLICY%2Fjznvnzmdnvl%2Findex.html

    4 https://edition.cnn.com/2018/08/13/politics/omarosa-white-house-diversity/index.html

    Referências Bibliográficas

    https://www.usa.gov/election

    https://promiseskept.com/

    https://joebiden.com/

    https://www.bbc.com/portuguese/internacional-37902090

    https://amers1.apps.cp.thomsonreuters.com/web/apps/newsservices/mediaProxy?apiKey=24afa7d8-4c90-4700-8b2e-b5b1ce7d5b16&url=https%3A%2F%2Fgraphics.reuters.com%2FUSAELECTION%2FPOLICY%2Fjznvnzmdnvl%2Findex.html

    https://graphics.reuters.com/USA-ELECTION/010091471JC/index.html

    https://graphics.reuters.com/USA-ELECTION-CALENDAR/0100B31F26V/index.html

    https://www.ubs.com/global/en/wealth-management/chief-investment-office/market-insights/regional-outlook/us-elections.html

    https://edition.cnn.com/election/2020/primaries-and-caucuses

    https://www.cnbc.com/elections/

     

    ESTE MATERIAL FOI PREPARADO PELA TALER PARA O USO EXCLUSIVO DO DESTINATÁRIO, NÃO PODENDO SER REPRODUZIDO OU DISTRIBUÍDO POR ESTE A QUALQUER PESSOA SEM EXPRESSA AUTORIZAÇÃO DA TALER. OPINIÕES, ESTIMATIVAS E PREVISÕES APRESENTADAS NESTE MATERIAL CONSTITUEM O NOSSO JULGAMENTO, CONSIDERANDO AS ATUAIS CONDIÇÕES DE MERCADO E AS INFORMAÇÕES AS QUAIS TIVEMOS ACESSO, SUJEITAS A CONSTANTES MUDANÇAS E REVISÕES. APESAR DE TODO O CUIDADO NA COLETA E MANUSEIO DAS INFORMAÇÕES APRESENTADAS, A TALER NÃO SE RESPONSABILIZA PELA PUBLICAÇÃO INCIDENTAL DE INFORMAÇÕES INCORRETAS, NEM TAMPOUCO POR OPERAÇÕES OU DECISÕES DE INVESTIMENTOS TOMADAS COM BASE NESTE MATERIAL. NENHUMA INFORMAÇÃO OU OPINIÃO DEVE SER INTERPRETADA OU TEM A INTENÇÃO DE SER UMA OFERTA DE COMPRA OU VENDA DOS ATIVOS MENCIONADOS. AS INFORMAÇÕES CONTIDAS NESTE MATERIAL SÃO DE CARÁTER EXCLUSIVAMENTE INFORMATIVO.

     

     

  • Carta Mensal Taler – Agosto 2020

    “Nem tudo que se vê é o que parece, nem tudo que parece é o que realmente é”

    Adriano Luís Corrêa – Pensador

    Este mês de Julho foi marcado pelos dados que surpreenderam positivamente, tais como: PIB de vários países, atividade e resultado das empresas. Tudo isso levando a crer que teremos uma recuperação da economia global em “V”, onde o cenário catastrófico foi deixado de lado.

    Os bancos centrais no mundo todo tem mostrado seu enorme poder com ações englobando não somente cortes nas taxas de juros, mas também distribuições de renda nunca antes vistas. Os estímulos fiscais e monetários estão causando grande efeito nas economias e certa euforia nos preços dos ativos.

    Acreditamos que agora vamos entrar em um momento mais moderado das economias, onde as expectativas mais pessimistas já foram superadas, ainda que a pandemia global e seus efeitos ainda estejam cercados de incertezas. Ao que parece, as renovações dos estímulos já estão sendo precificadas e o mercado agora está com os olhos voltados para o ano de 2021, na recuperação econômica, onde é esperado que a doença já tenha sido deixada para trás. Além disso, enxergamos que depois que esta maré passar, ainda teremos um cenário de alto endividamento das empresas e um provável aumento no índice de inadimplência.

    Claramente, temos visto, que os dados referentes aos PIB’s deste segundo trimestre e PMI’s mensais (Índice de Gerente de Compras, fornece informações sobre as condições de negócio), dependeram diretamente de como foram tratadas e de quão rígidas foram as medidas de restrição. Os PMI´s da Zona do Euro e Chinês de julho ficaram acima do patamar de 50 pontos (que indica recuperação da economia), todos acima das expectativas. O velho continente, que vivenciou o ciclo de medidas restritivas mais cedo, observa agora uma recuperação mais intensa. De uma forma inédita, a Europa apresentou um pacote de ajuda fiscal que se destacou pelo tamanho e abrangência a ser direcionado principalmente aos países mais frágeis da região.

    Nos países desenvolvidos, os juros nominais estão quebrando recordes de baixa. Destaca-se o título do tesouro americano que fechou o mês de julho com uma taxa de 0,53% ao ano para o vencimento em 10 anos. Isto significa que o detentor destes títulos dificilmente terá algum retorno acima da inflação. Os EUA têm mostrado uma recuperação mais fraca que a Europa e China. Os índices de atividade e mobilidade não surpreenderam, em função das restrições ainda presentes em alguns estados que foram afetados por uma segunda onda da pandemia.

    Os Estados Unidos também apresentam uma vulnerabilidade em relação a continuidade do auxílio emergencial, o qual está sendo discutido no Congresso e gerando atritos entre os partidos Democrata e Republicano. No que diz respeito às eleições presidenciais, ainda há uma enorme incerteza sobre o resultado.
    Consideramos que Joe Biden poderia apresentar um possível risco ao mercado acionário americano, por defender em seu plano de governo um aumento de impostos corporativos e aumento do imposto de renda sobre o decil mais alto das pessoas físicas americanas. Entretanto, acreditamos que só vamos começar a enxergar algum respaldo no preço dos ativos, a medida que as eleições forem se aproximando.

    No Brasil, vemos que a renda total tem caído pouco mediante os estímulos e a população está acumulando mais poupança, seja por medo de uma incerteza ou por falta do que gastar por uma demanda ainda reprimida. A visualização de uma melhora em nossa economia local veio à tona de forma mais clara neste mês de Julho.
    Índices de mobilidade e de atividade econômica de maior frequência seguem melhorando, a medida que os estados estão afrouxando as medidas restritivas. O receio que fica a vista é o ambiente político, no qual a pandemia pode ser usada como pressuposto para aumentar os gastos de maneira irresponsável. O período de calamidade pública está sendo estendido temporariamente, flexibilizando a regra do teto de gastos. A preocupação que temos é esta flexibilização se tornar algo permanente.

    A nossa dívida pública bruta alcançou 75,8% do PIB no final de 2019, estima-se que essa relação Dívida/PIB atinja cerca 100% ao final do ano de 2020. Nossa intenção aqui não é demonizar o déficit, pois o endividamento público é uma reação necessária ao combate da pandemia. Todavia, estamos atentos ao desafio que a equipe econômica do governo tem pela frente para resistir a essa pressão por um aumento maior nos gastos. O que não falta é criatividade para evitar as amarras fiscais previstas na legislação. Enquanto isso a reforma tributária foi encaminhada, a reforma administrativa sendo estudada e ambas implicam afrouxamento das contas públicas.

    O que existe no mercado financeiro hoje é uma grande dispersão de projeções com relação à queda efetiva da economia neste ano e a velocidade da recuperação. O momento que estamos observando, até agora, pode levar muitos a uma visão favorável para ativos de risco, mas nos faz prestar atenção para um alerta: será que as políticas expansionistas não estão sendo implementadas de forma excessiva ou serão prolongadas por um período longo, de forma que causem efetivamente um processo inflacionário no futuro? Será que, em algum momento do tempo, a solvência nacional pode ser questionada?

    Seguimos atentos e cautelosos, pois a sensação é de que já assistimos a esse filme antes, dado que nos últimos anos o Brasil tem visto retrocessos no controle das contas públicas.

z
Fechar