Carta Mensal

  • CARTA MENSAL – MARÇO 2021

     

    “An emerging market is a country where politics matters at least as much as economics to the market “

    Ian Bremmer

    O mês de fevereiro deu continuidade à correção de preços no mercado local, com rendimentos negativos tanto na bolsa como nos títulos do governo pré-fixados e indexados à inflação. Acreditamos que esse movimento se dê principalmente por três fatores: a piora dos fundamentos macroeconômicos no Brasil, o avanço da pandemia e o aumento da percepção de risco fiscal e político no país. No exterior, a combinação entre o ambiente super estimulativo e a normalização da atividade seguem contribuindo para uma expectativa de inflação mais alta. Além disso, commodities cíclicas como o petróleo e o minério de ferro têm tido altas relevantes de quase 20% ao longo deste mês, o que pressiona os preços de energia e de materiais básicos.

    Nos mercados desenvolvidos, o ritmo mais forte da campanha de vacinação acelerou as perspectivas de reabertura, com destaque para Estados Unidos e Reino Unido, que já vacinaram respectivamente 23,5% e 31,4% da sua população. Além disso, tivemos a aprovação emergencial da vacina da Johnson & Johnson pela FDA, que requer apenas uma dose e é de mais fácil armazenagem. Continuamos a ver uma queda consistente nas hospitalizações, principalmente nos grupos que já tiveram acesso à vacinas.

    O pacote fiscal americano de US$ 1.9 trilhão caminha para ser aprovado em meados deste mês e o Fed segue com uma comunicação mais tolerante com relação à inflação. No geral, o panorama internacional continua positivo para atividade, mas o aumento dos juros reais contribuiu para a correção em alguns ativos, como o ouro, que caiu 6,78% no mês. Caso a abertura do juro real seja mais abrupta do que o esperado, o cenário poderia provocar uma desalavancagem mais forte, instigar correções nos mercados de ações e de crédito, e aumentar a pressão por uma redução dos estímulos.

    No Brasil, o avanço da pandemia continua a preocupar. O ritmo da vacinação continua lento e a variante de Manaus parece estar se espalhando mais rapidamente por outras regiões do país. Recentemente, doze dos estados levantaram novas medidas de restrição e alguns optaram novamente pelo fechamento de serviços não essenciais. O agravamento da pandemia deve gerar uma defasagem do processo de recuperação econômica e pressionar ainda mais o governo para renovar o auxílio emergencial, que deverá vir em 4 rodadas de R$250 reais para 46 milhões de brasileiros, com custo total estimado em R$ 46 Bi.

    A PEC Emergencial segue sendo o item mais importante da pauta política do país no curto prazo. O grande risco associado a este tema seria uma desidratação relevante dos gatilhos fiscais que viriam como contrapartida para a renovação do auxílio. Alguns temas, que provavelmente foram colocados como moeda de negociação, já encontraram resistência no Senado, como o piso para saúde e educação.

    O episódio da demissão do Presidente da Petrobrás, após a defesa  pública da política de preços que segue a paridade internacional, acrescentou volatilidade aos mercados, com os investidores estrangeiros retirando R$9,2 bilhões da bolsa em apenas três dias após o anúncio da decisão.

    O real foi uma das piores divisas do mês, acumulando desvalorização de 7,42% no ano até o final de fevereiro, mesmo com uma intervenção do Bacen que somou US$ 5 bilhões via derivativos e mercado a vista.  A atuação recente do Banco Central tem chamado atenção do mercado, uma vez que a autoridade interveio no passado com a premissa de diminuir a volatilidade do câmbio por questões pontuais, o que pode não ser o caso desta vez. A aventura populista do governo pode criar uma espiral negativa no câmbio e recair sobre a inflação, que já está rodando acima do centro da meta e assim deve permanecer pela maior parte do ano. Isso prescreve a necessidade de normalização da taxa Selic, que já deve iniciar o ciclo de alta na próxima reunião.

    Entendemos que o cenário que se desenha à frente será volátil no mercado local, conforme apontamos nas últimas cartas, enquanto enfrentamos um dos piores momentos da pandemia e passamos por uma agenda de discussão fiscal que mexe com diversos interesses eleitoreiros.


  • CARTA MENSAL – FEVEREIRO 2021

    “You want to have a future where you are expecting things to be better, not one where you are expecting things to be worse.”

    Elon Musk

     

    O mês de janeiro foi marcado pela alta volatilidade nos preços de ativos, tanto no cenário internacional como local. Globalmente, as campanhas de vacinação vão ganhando tração e parecem gerar uma queda significante nos níveis de hospitalizações, o que favorece uma perspectiva de recuperação mais ampla da economia e o tão esperado alívio nas medidas de distanciamento. Por outro lado, algumas notícias com relação a novas variantes da doença e novas medidas de distanciamento geraram questionamentos com relação ao ritmo da recuperação e a volta a normalidade. Além disso, tivemos alguns episódios especulativos no mercado que contribuíram para mais volatilidade, porém acreditamos que são eventos irrisórios considerando nosso horizonte relevante de investimento.

    No Brasil, a eleição para a presidência da Câmara e do Senado também gerou altos e baixos, com todos os candidatos à presidência das casas se mostrando inclinados a discutir uma renovação do auxílio emergencial. Os candidatos apoiados pelo governo foram eleitos em ambas as casas, o que afastou algumas preocupações imediatas, como a pauta de impeachment do Presidente e criou uma perspectiva de andamento da agenda de reformas.

    Nos Estados Unidos, a vitória na eleição para o Senado no estado da Georgia propiciou um aumento do poder dos Democratas e o andamento de outros itens da agenda do partido, como a aprovação de um maior pacote de estímulos fiscais, que segue em discussão e provavelmente se materializará. A somatória dos pacotes fiscais em resposta à pandemia chegará a quase 25% do PIB americano, se o pacote for aprovado. Além disso, o Fed que continua a sinalizar uma política monetária super estimulativa, mais tolerante com a inflação, e as vacinas devem promover a normalização da atividade, recuperando setores mais afetados pelo distanciamento. Esses vetores conspiraram para expectativas de inflação crescentes e um aumento relevante das taxas nominais dos títulos de 10 anos do governo americano. O cenário internacional segue uma trajetória construtiva para a recuperação da atividade, uma vez que os países desenvolvidos
    seguem vacinando sua população e sinalizando mais políticas estimulativas.

    No Brasil, os dados de atividade seguem surpreeendendo positivamente. O mercado de trabalho está mostrando uma dinâmica de recuperação rápida e principalmente os dados do setor industrial estão trazendo perspectivas melhores. A tendência dos preços aparenta seguir uma trajetória altista  após as políticas estimulativas empreendidas durante a pandeima, com alguns riscos adicionais, como a alta do preço das commoditites sem a contrapartida de enfraquecimento do dólar.

    Continuamos a acreditar que o COPOM deve começar o ciclo de normalização da taxa de juros entre suas duas próximas reuniões, com a Selic ficando próxima de 4% ainda neste ano. Com relação aos desafios fiscais, acreditamos que o país enfrenta um problema secular em nossa história e alguns agravantes vindo da maneira como nosso sistema político é estruturado, mas o panorama ficou mais positivo. Por enquanto, os eleitos para as presidências das casas se mostraram favoráveis a uma renovação do auxílio emergencial por alguns meses, mas também endossaram um discurso alinhado com o avanço da agenda de reformas e a pauta econômica do governo.

    A estrada de reformas que precisamos seguir deve ser tortuosa nos meses à frente e historicamente enfrenta barreiras políticas. Outro ponto que agrava esta situação é a relativa proximidade das eleições de 2022 e a deterioração da aprovação do governo, mostrada nas pesquisas mais recentes. Esses fatores podem propiciar soluções politicamente aceitáveis, mas economicamente desafiadoras. Por enquanto, o mercado está de lua de mel com o novo grupo de políticos que controla as casas; e estes têm mostrado algum comprometimento com algumas reformas, mas resta saber se a prática conversará com a retórica. Seguimos especialmente atentos ao ritmo de vacinação dos países e desdobramentos da pandemia, que ainda deixa incertezas relevantes no horizonte.


  • CARTA MENSAL TALER – JANEIRO 2021


    “It all comes down to interest rates. As an investor, all you’re doing is putting up a lump-sum payment for a future cash flow.”

    Ray Dalio

    O ano de 2020 foi marcado por diversas mudanças abruptas, tanto nos mercados como em nossas vidas. A pandemia do coronavírus onerou fortemente a economia mundial, fragilizando diversos setores, punindo os mercados de trabalho e causando um salto sem precedentes no já preocupante nível de endividamento mundial, sobretudo nas economias desenvolvidas. No entanto, a recuperação dos mercados foi tão inusitada quanto o choque que se abateu sobre a economia, com uma rodada de estímulos fiscais e injeções de liquidez nunca antes vistas; o que ajudou fortemente a aliviar as condições financeiras dos países. O ano de 2021 começa com um tom mais otimista, com a perspectiva de uma massiva campanha de vacinação que deverá permitir uma recuperação mais ampla da economia e do mercado trabalho, juntamente com mais uma rodada de estímulos nos países desenvolvidos.

    No cenário internacional, os desenvolvimentos do mês foram positivos para os ativos de risco. Por um lado, iniciaram-se as campanhas de vacinação mundo afora, que devem tomar uma boa parte do primeiro semestre até que vejamos alguma resposta relevante em termos de imunização, principalmente porque a maioria das vacinas conta com mais de uma dose para atingir uma eficácia significativa. Não obstante, já temos 3 vacinas aprovadas em diversos países para uso massivo e 7 vacinas aprovadas para uso limitado. Por enquanto, Israel lidera a corrida de imunização com cerca de 20% da sua população vacinada, enquanto os EUA têm cerca de 2% da população que já recebeu a primeira dose.

    Nos EUA, mais um pacote de estímulos foi aprovado; serão R$ 900 Bi a serem entregues em ajuda para as famílias e ampliação do benefício do seguro desemprego. Os dois pacotes ficais lançados até agora já somam quase 1/5 do PIB americano. Ainda, é possível que o escopo deste impulso fiscal acabe aumentando em decorrência da finalização das eleições para o senado na Georgia, que acabaram dando mais poder político para os democratas, garantindo o voto de minerva para a vice-presidente Kamala Harris. Com isso, a agenda democrata que almeja aumentar as alíquotas de impostos corporativos, aumentar regulações sobre empresas de tecnologia e, finalmente, ampliar o estímulo para cerca de US$ 3 Tri tornou-se mais provável de se materializar. Esse evento contribuiu para a abertura nas taxas dos títulos de 10 anos do governo americano, que romperam a barreira do 1% e com o aumento da inflação implícita americana, onde o vencimento de 2 anos já supera a meta de 2% do Fed, que adotou recentemente a política de meta de inflação média. O novo panorama de política adotado permite que a inflação permaneça acima da meta por algum tempo para compensar o período onde a meta rodou abaixo de 2%. A Zona do Euro segue sendo uma das regiões mais abaladas pela pandemia, com uma importante escalada das políticas de distanciamento no começo deste ano. Com isso, o BCE, autoridade monetária da Zona do Euro, anunciou o aumento dos estímulos monetários para este ano, o que deve acarretar em um aumento no ritmo do programa de compra de ativos (PEEP).

    No Brasil, como reflexo do massivo impulso fiscal empreendido pelo governo, o setor de bens desempenhou um papel importante na recuperação econômica e o mercado de trabalho tem respondido com uma velocidade relativamente alta, embora o caminho da recuperação ainda seja longo. Do lado político, o final do ano trouxe notícias positivas com a aprovação da LDO e a prudente decisão de não renovar o auxílio emergencial, mas as eleições das casas legislativas em fevereiro serão um ponto importante para a aprovação da agenda de consolidação fiscal. Prospectivamente, a não extensão do auxílio emergencial já começa a se refletir nos indicadores de confiança de consumo e de serviços, que se estabilizaram. Em contrapartida, a taxa de poupança nas máximas históricas deve ser um elemento de suporte para a retirada do benefício fiscal, conforme as famílias usem esse colchão de liquidez para suportar seus gastos. Além disso, dados mais positivos com relação à atividade no 4 º Tri podem trazer uma surpresa positiva com relação ao ritmo da recuperação econômica no país, principalmente na parte de bens industriais. Parece claro para nós que o controle e superação da pandemia continuará sendo o fator principal que deve guiar a retomada do crescimento econômico no país este ano. Alguns fatores pontuais como a postergação do reajuste das tarifas de ônibus nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo e a decisão de não aumentar o ICMS em São Paulo são elementos que tiram pressão sobre a inflação de curto prazo, mas dada a reversão das expectativas de inflação é provável que o Banco Central inicie o processo de normalização de juros em algum momento deste semestre.

    O cenário de recuperação global e de taxas de juros muito baixas por um horizonte relevante nas economias desenvolvidas continua a favorecer uma alocação em ativos de risco. Seguimos atentos aos desenvolvimentos políticos no Brasil, especialmente as eleições para a presidência da Câmara e do Senado. No geral, o tema de repressão financeira hoje continua tão importante quanto no ano passado, e deve perdurar por um horizonte relevante de tempo.

  • Carta Mensal Taler – Dezembro 2020

    ““Prices are too high” is far from synonymous with “The next move will be downward.” Things can be overpriced and stay that way for a long time … or become far more so.”

    Howard Marks

    O mês de novembro foi marcado por um ambiente benigno para ativos de risco nos mercados globais decorrente da diminuição das incertezas com relação à eleição nos Estados Unidos e da perspectiva de uma recuperação mais ampla da economia graças a notícias favoráveis das vacinas. No Brasil, a agenda política pouco andou em decorrência das eleições municipais, mas bom humor global contaminou os mercados com uma entrada de R$ 33 bilhões do investidor estrangeiro na bolsa local, que teve seu melhor mês desde 2016, subindo 15,90%.

    Um dos vetores de otimismo global no mês veio das eleições americanas. O candidato democrata Joe Biden foi eleito o 46º presidente dos Estados Unidos e o medo de judicialização das eleições desapareceu. Com isso, houve uma melhora na perspectiva de um novo pacote de estímulos para a economia americana e das expectativas com relação à política externa em torno de um governo mais favorável à globalização e comércio internacional. A perspectiva de um maior volume de comércio entre os países e maior crescimento Chinês pode ter favorecido um movimento de entrada em países como o Brasil, onde a bolsa estava mais descontada em relação aos seus pares. Acreditamos que ainda é cedo para bater o martelo sobre como será a política externa americana nos próximos anos, mas a abundância de liquidez nos mercados internacionais faz com que o mercado compre no rumor e venda na notícia.

    Com relação à Covid-19, tivemos múltiplos desenvolvimentos positivos de tratamentos e vacinas. No dia 09 de novembro, a vacina de RNA mensageiro (mRNA) da Pfizer/BioNTech apresentou dados preliminares indicando que a vacina obteve uma efetividade estimada em 90%. Duas semanas depois, outra vacina de mRNA da Moderna também apresentou dados preliminares positivos e tivemos a aprovação emergencial da FDA para o coquetel de tratamento da Regeneron (REGN-COV2). A perspectiva mais material da resolução da crise da Covid-19 incitou um movimento de rotação no mercado acionário, que saiu de ações de “crescimento” para ações de “valor”, algo que também foi benéfico para as blue chips brasileiras.

    No cenário local, a agenda política ficou parada enquanto as eleições municipais marcaram uma vitória para os partidos de centro, que abocanharam a maior parte dos orçamentos municipais. No curto prazo, o otimismo global tomou conta do mercado de ações, enquanto a curva de juros continuou a sofrer com o aumento da inflação de curto prazo. As preocupações com relação ao fiscal se mantém e a resolução deste problema deve exigir uma ampla agenda de reformas para o ano que vem.

  • CARTA MENSAL – NOVEMBRO 2020

    “São todos maus descobridores os que pensam que não há terra quando conseguem ver apenas o mar” Francis Bacon

    Os dados de outubro continuaram a mostrar uma recuperação da atividade nos principais mercados desenvolvidos. Destaque para o PIB dos Estados Unidos, que cresceu a uma taxa anualizada de 33.1% no 3º trimestre, e da China que deve terminar o ano com um crescimento do PIB esperado próximo de 2%.

    Dados da economia real e os indicadores de alta frequência mais positivos propiciaram um ambiente favorável para os ativos de risco ao longo do mês. No entanto, na última semana do mês, o anúncio de novos lockdowns por conta da piora da segunda onda de Covid-19 na Europa e a proximidade das incertezas associadas à eleição americana provocou um forte movimento de aversão ao risco, revertendo a alta do mês em diversos mercados.

    No Brasil, a combinação do estímulo fiscal massivo aliado a melhoria da pandemia segue favorecendo a recuperação da atividade que surpreende positivamente. Vendas no varejo e produção industrial já estão acima dos níveis pré-crise, além de sinais de melhora no mercado de trabalho. Mesmo com uma alta taxa de desemprego em 14.4%, já estamos no 3º mês consecutivo de criação líquida de vagas e uma participação da força de trabalho, embora muito baixa, que parou de piorar.

    O COPOM manteve novamente a taxa Selic em 2% a.a., além de sinalizar que ela deve permanecer neste patamar embora o mercado já esteja precificando uma alta da taxa de juros no primeiro semestre de 2021. Os índices de inflação seguem sendo pressionados pela inflação de bens que já começou a contaminar os núcleos nos últimos meses. As projeções de inflação ainda estão abaixo da meta, mas há claramente um risco maior vindo do repasse cambial, além da escassez na cadeia de suprimentos de bens duráveis que estão influenciando os preços para cima.

    Seguem no radar do Banco central os riscos da retirada do auxílio emergencial, o hiato do produto negativo (PIB inferior ao seu potencial) e o risco de um possível retorno da pandemia. Se o regime fiscal do país for mantido e as expectativas inflacionárias de longo prazo se mantiverem ancoradas, é provável que o choque atual não contamine significativamente a inflação de 2021. A pressão inflacionária recente deve ser naturalmente reduzida pela queda no consumo resultante do vencimento do coronavoucher e pela forte redução do déficit primário para o ano que vem. No entanto, se a âncora fiscal do país não for respeitada, o ajuste cambial será mais severo e provavelmente perderemos a ancoragem da inflação.

    Neste mês, novamente a agenda política pouco caminhou por conta das eleições municipais. Nos parece que o governo não tem mais o fator tempo a seu favor e, cada dia passado sem o avanço desta agenda de reformas, aumentam as chances dos mercados precificarem um cenário fiscal mais negativo. No entanto, o mês foi marcado pelo avanço de algumas pautas legislativas, como o projeto que formaliza a independência do Banco Central, um importante avanço institucional para o país.

    Nos Estados Unidos, tivemos a eleição presidencial com a vitória do candidato democrata Joe Biden, ainda que contestado pelo presidente Donald Trump. A disputa pelas casas, ainda indefinida hoje, aponta para um senado majoritariamente republicano com o controle democrata na Câmara.

    Nossa expectativa é que teremos um novo pacote fiscal, porém menor e sem a contrapartida de aumento de impostos. Além disso, é possível que o governo Biden adote uma postura mais favorável ao comércio internacional, diminuindo a incerteza, e que deve favorecer o crescimento para países emergentes. Por outro lado, a agenda de sustentabilidade e a questão da Amazônia podem criar barreiras para a economia brasileira.

    O maior movimento de aversão a risco no mês veio da Europa, com o índice EuroStoxx caindo 7,4%. A segunda onda da Covid-19 já vinha acelerando sua taxa de contaminação desde o começo de agosto, mas mostrou uma dinâmica ainda mais explosiva em outubro, o que impactou significativamente o número de hospitalizações e causou a adoção de novas restrições de mobilidade em vários países.

    A intensificação do distanciamento social deve impactar negativamente a recuperação da atividade, porém provavelmente em um nível menor do que aquele observado no lockdown de março e abril. Ademais, o ambiente mais desafiador da pandemia deve incitar novamente estímulos de cunho fiscal e monetário por parte das autoridades, o que tende a ser favorável para os mercados no curto prazo, apesar do impacto negativo do confinamento sobre a economia real.

    Além disso, surgiram notícias de uma mutação do vírus em novas cepas encontradas nos Visons, que já teria contaminado alguns humanos na Dinamarca, e que poderia diminuir a eficácia de uma futura vacina. O tema ainda não é consensual e acompanharemos os comentários de especialistas e das autoridades científicas sobre o assunto. O desenvolvimento de vacinas segue forte, com mais 11 atualmente na fase III e 6 aprovadas para uso limitado. Seguimos atentos aos desenvolvimentos da pandemia nos países, aos estímulos e ao ritmo da recuperação econômica.

    Ressaltamos que a posição fiscal onde o Brasil se encontra é extremamente frágil e que uma segunda onda, embora não seja o nosso cenário base, ainda representa um risco importante, uma vez que temos pouco poder de fogo do ponto de vista de estímulos monetários ou fiscais.

     

  • Eleições Americanas II


    A eleição norte-americana é, sem dúvida, um assunto que poderíamos discorrer abordando diversas frentes. Após trazermos o funcionamento do pleito, assim como, uma breve apresentação dos candidatos e o que cada um pensa em questões chave, pensamos em dar uma continuação, já que ela será, tudo indica, a mais controversa de todos os tempos.

    Gráfico de intenção de votos segundo o site RealClearPolitics.

    Elaboração: Taler

    Eleições no radar dos investidores

    Já foi citado e não precisamos repetir o peso que um evento como esse possui nos mercados. Segundo o jornal Valor Economico, uma pesquisa global realizada pelo Grupo deVere, uma das maiores organizações independentes de consultoria financeira do mundo, perguntou a mais de 700 clientes: “Qual é a sua maior preocupação de investimento para o resto de 2020?” 72% dos entrevistados disseram que uma eleição contestada dos EUA é o maior risco. Em segundo lugar, o impacto de uma segunda onda de covid-19 foi mencionado 18% e, por fim, a guerra comercial EUA-China, com 5%. Os 5% restantes foram compostos por outras questões geopolíticas, como o Brexit.

    Calendário

    Já apresentamos as principais diferenças entre a eleição nos EUA e no Brasil. Por isso, não vamos entrar novamente nelas. Mas destacamos que a principal diferença é que a eleição lá é no esquema “winner takes all”, ou seja, se o candidato ganhou por 1 voto em certo estado ele leva todos delegados correspondentes e não sua proporcionalidade.

    Outro ponto de diferença marcante é que nos EUA os votos não acontecem apenas no dia da eleição, como no Brasil. Mas por lá, por o voto não ser obrigatório, a votação começa bem antes.

    A partir de setembro, os eleitores podem visitar um local de votação ou votar por carta. Para essa eleição a expectativa é que até 70 milhões de pessoas votem pelos correios, um número 3 vezes superior quando comparado às eleições de 2016. Para se ter uma ideia de quão relevante é esse número, isso é representa quase metade dos cidadãos aptos a escolher seus representantes.

    Mas votar pelo correio não é tao simples em todo país e funciona de maneira diferente dependendo do estado. Podemos separar o modo como é feito em 3 maneiras:

    a) Como e quem pode votar: todos os estados americanos permitem. Mas ao mesmo tempo, cada um deles pode ter sua própria regra eleitoral. Nove estados enviam células para todos os eleitores automaticamente, sem requerimento prévio. Nos outros 41 é preciso solicitá-las, sendo que em 5 deles é pedido uma justificativa para votar à distância. Não há custos para o envio. Mas alguns estados tornam a experiência um pouco mais difícil, adicionando burocracias;

    b) Prazos: em alguns estados, como em Indiana, é preciso pedir a célula com no mínimo 2 semanas de antecedência do pleito, já em outros, como Ohio, por exemplo, isso pode ser feito em até 3 dias;

    c) Apuração: da mesma forma, cada um dos estados tem seu prazo e forma. A Flórida, para exemplificar, inicia a contagem 22 dias antes da eleição, Colorado 15 dias antes, Arizona 2 semanas antes. Seis deles, no entanto, não permitem a contagem antes do dia oficial (Pensilvânia, Wisconsin, Dakota do Sul, Wyoming, Mississípi e Alabama), o que pode significar que o resultado pode demorar a sair por mais de 1 semana;

    Além disso teremos debates, não só dos presidenciáveis, mas também dos vices.


    Primeiro debate dos Presidenciáveis

    Ocorreu no dia 29 do mês passado. Foi vergonhoso e pouco proveitoso para os eleitores tomarem algum tipo de decisão. Marcado por troca de acusações e constantes interrupções por parte do republicano, que obrigaram o mediador a intervir em mais de uma ocasião.

    Joe Biden, conhecido pela dificuldade na oratória, estava sob escrutínio. Segundo a mídia especializada, seu desempenho foi em linha com o esperado. O democrata usou palavras pesadas como ‘cale a boca’, ‘palhaço’ e ‘racista’ numa tentativa de interromper os ataques do republicano.

    Biden atacou o presidente sobre temas relevantes e polémicos, como o modo como lidou com a pandemia, tentativas de derrubar o Obamacare e falha ao apresentar propostas alternativas para eles.Já Trump assumiu postura mais agressiva, se utilizando das interrupções para mudar o foco do debate quando conveniente. Em geral, o presidente buscou associar Biden à ala “radical” e “socialista” do partido democrata e soube pressionar seu adversário sobre temas como os negócios no exterior de seu filho, Hunter Biden.

    Debate dos vices

    debate entre Kamala Harris e Mike Pence na noite do dia 7/10 foi marcado pela cordialidade entre os candidatos à vice-presidência dos Estados Unidos, tom bem diferente do clima acalorado entre Donald Trump e Joe Biden no primeiro debate.

    Ambos são potenciais candidatos à presidência para as eleições de 2024. Donald Trump não poderá concorrer a um terceiro mandato, enquanto Biden, com 82 anos no próximo pleito, já adiantou a possibilidade de não ser candidato à reeleição.

    Kamala chamou o modo como Trump lidou com a pandemia de “o maior fracasso”. Também destacou que caso Trump recomendasse uma vacina ela não a tomaria. Afirmação prontamente rebatida por Pence, que disse: “pare de fazer jogos políticos com a vida dos americanos”. Impostos foi outro ponto bastante explorado por ambos, com o vice de Trump acusando Biden de tributar ainda mais os americanos.

    A guerra comercial sino-americana também foi muito debatida. De um lado Pence acusou Biden de associação com o Comunismo, de outro Harris disse que a guerra acelerada por Trump custou centenas de milhares de desempregos nos EUA.

    Outro ponto bastante polemico foi a vaga na Suprema Corte, onde Trump indicou a juíza Amy Coney Barrett. Pence, lógico, defendeu a iniciativa. Já Harris, disse que o mais sensato seria o próximo presidente tomar essa decisão.

    Segundo a rede de notícias CNN, Kamala Harris se saiu melhor no debate.

    Por que essa vaga na Suprema Corte é tão polêmica?

    Até então, a Suprema Corte americana era formada por nove juízes, sendo 5 conservadores e 4 progressistas. Com o falecimento de Ruth Ginsburg, Donald Trump correu para indicar a nova sucessora e o nome cogitado foi de Amy Barret, conhecida pelo conservadorismo em suas decisões, o que manteria a atual divisão. Com sua posse, 6 dos nove juízes consolidará uma maioria indicada por Republicanos.

    É com essa maioria que Donald Trump espera que se saia vitorioso em temas que seriam decididos pela Corte. Alguns deles bastante polêmicos. Entre os principais:

    • Obamacare: Trump é contra. Ele espera que a Suprema Corte anule esse texto;
    • Aborto: Trump, que defendeu o direito das mulheres ao aborto no passado, agora se opõe à prática, uma questão muito importante para eleitores da direita religiosa;
    • Posse de armas: Trump prometeu proteger a Segunda Emenda à Constituição, que muitos americanos interpretam como garantia ao direito de adquirir e portar armas;
    • Eleições: com suas denuncias, sem provas, que o voto por correspondência pode ser objeto de fraude, uma possível disputa eleitoral pode precisar ser resolvida na Corte;

    Não só o salão oval está em jogo

    Abordamos com frequência quem será o próximo presidente, mas sabemos que ele não governa sozinho. Ele precisa de apoio do congresso, formado pelo Câmara dos Representantes (Camara dos deputados) e pelo Senado.

    Com isso, está em jogo todas as 435 cadeiras da Camara e 35 das 100 posições do Senado.

    De acordo com as mais recentes pesquisas divulgadas, há 99% de chance de os Democratas possuírem maioria na camara dos representantes, com uma representatividade que pode variar entre 50-56% do total. Ou seja, os democratas podem ficar com entre 220 e 262 posições.

    Já no Senado, atualmente controlado pelos Republicanos, das 100 cadeiras existentes, 45 são Democratas, 53 Republicanos e 2 são independentes. Das 35 vagas em disputa, 12 são Democratas e os 23 restantes são Republicanos. Quando se iniciaram as pesquisas, era praticamente dado como certo se manter a maioria Republicana na casa.

    Os números atuais não estão tão altos a favor dos Democratas como estão na Camara, mas ainda sim bastante expressivos. As últimas pesquisas mostram em torno de 70% de chance de ficarem entre 47-57 cadeiras e, assim, assumir a maioria também.

    Quais as consequências?

    Excluindo os fatores chaves que abordamos no relatório passado, pontos que poderiam afetar mais o dia-a-dia dos cidadãos, podemos abordar 3 fatores com impactos significativos.

    a) Eleição contestada: como descrevemos acima, há uma confusão na maneira como funciona a votação pelos correios, pelo menos 300 ações judicias já questionam aspectos dela. Os processos vêm dos dois lados, democrata e republicano, mas, com certeza, por motivos diferentes. Pesquisas mostram que mais democratas vão votar pelos correios esse ano. Os republicanos, por sua vez, tentam restringir essa maneira de votar, alegando possíveis fraudes. Não há indícios de fraudes consideráveis na história das eleições americanas e nem que possa acontecer dessa vez.

    Esse questionamento republicano tem uma razão bem forte. Como mais democratas já afirmaram sua preferência de votar de maneira remota, o que pode acontecer é que no início da contagem Donald Trump possa aparecer na dianteira e que essa liderança desapareça nos dias seguintes, conforme os votos que foram enviados pelos correios comecem a ser apurados (blue shift). Esse fenómeno é chamado pela imprensa de “miragem vermelha”. Isso acabaria sendo o maior temor dos analistas. Trump poderia usar essa liderança parcial e posterior perda como argumento de fraude e, assim, adicionar mais incerteza e, consequentemente, volatilidade.

    b) Formação do Congresso e possíveis apoios: Na média de opiniões de analistas uma vitória de Biden em novembro com os democratas reconquistando o controle do Senado pode resultar em um grande aumento nos impostos e nos gastos federais, junto com uma mudança nas políticas de saúde, regulatórias e comerciais.

    A maior divisão entre os dois candidatos é sobre impostos e gastos. Biden apoia medidas que, se aprovadas na íntegra, aumentariam as receitas e despesas federais em mais de US$ 4 trilhões, ou 10% em relação aos níveis pré-pandêmicos, segundo cálculos da Capital Economics.

    No cenário com Trump vencendo a reeleição, e os republicanos se mantendo no Senado, ajudaria nas aprovações de suas propostas. Suas chances de reconquistar a Câmara parecem cada vez menores, o que deixaria o Congresso dividido. Ao contrário de Biden, Trump expressou apoio a outra rodada de cortes de impostos.

    Qualquer uma das propostas exigiria controle total do Congresso para avançar. Embora seus planos impliquem um tamanho muito diferente do governo federal nos próximos anos, é improvável que isso importe muito para as perspectivas econômicas, porque sob qualquer um dos candidatos a política fiscal permaneceria acomodatícia.

    c) Impactos nos mercados: Tudo isso pode ter influência sobre o desempenho do mercado de ações, mas, com a política fiscal e monetária permanecendo frouxa não importando quem vença, a eleição pode ter um impacto secundário sobre as perspectivas de crescimento econômico para os próximos anos.

    Em resumo, ambas as agendas possuem pontos positivos e negativos:

    • Do presidente Trump inclui: aspectos positivos como impostos corporativos baixos, menos regulação governamental e projetos de infraestrutura; e aspectos negativos como mais incerteza em relação a tratados comerciais e a China;
    • Do candidato Biden: aspectos positivos, como a redução da desigualdade de renda, a promoção da energia limpa, gastos com infraestrutura e mais previsibilidade com relação à política comercial e a China; e aspectos negativos, como um aumento nos impostos corporativos e mais regulação governamental;

    E a China?

    Talvez essa possa ser a principal questão para a economia global. Joe Biden, possivelmente, adotaria uma abordagem menos agressiva, mas não impediria uma maior dissociação com a China.

    Segundo a Capital Economics, a distância que se formou entre a China e os EUA foi causado pelo surgimento da China como um competidor geopolítico dos EUA, e não pela personalidade de Donald Trump em si. A pandemia apenas reforçou a ênfase do país asiático em seu modelo liderado pelo Estado, focado na promoção da inovação doméstica. Portanto, sob qualquer um dos candidatos, a guerra “comercial” provavelmente se espalhará para novos limites no acesso ao mercado e fluxos de tecnologia (e possivelmente finanças).

    No entanto, Biden provavelmente adotaria uma abordagem diferente para lidar com a ameaça da China. Em particular, sua ênfase seria na construção de uma coalizão de aliados para resistir as investidas chinesa. Isso poderia ajudar a fortalecer as relações dos EUA com a Europa em particular, e a dar um novo fôlego ao multilateralismo.

    No fim das contas:

    Independentemente de quem assuma a Casa Branca e da composição do Congresso em janeiro de 2021, uma recuperação econômica gradual e o apoio contínuo do FED aos mercados financeiros podem significar que as perspectivas para as ações dos EUA são promissoras.

     

    Referências Bibliográficas

    https://www.capitaleconomics.com/us-election-2020/

    https://www.cnbc.com/elections/

    https://www.nytimes.com/interactive/2019/us/elections/2020-presidential-election-calendar.html

    https://projects.economist.com/us-2020-forecast/house

    https://valor.globo.com/wall-concurrence/?next=https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/09/29/eleicao-nos-eua-entra-de-vez-no-radar-do-investidor.ghtml

    https://valor.globo.com/financas/coluna/implicacoes-da-eleicao-nos-eua-para-os-investimentos.ghtml

    https://projects.fivethirtyeight.com/polls/president-general/national/

    https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/10/06/numero-recorde-de-eleitores-vai-votar-pelo-correio-nos-eua-em-2020.ghtml

    https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2020/10/08/covid-19-e-trump-dominam-debate-entre-candidatos-a-vice-presidencia-dos-eua?utm_source=CNN+Brasil+Newsletter&utm_campaign=36b23e0126-NEWSLETTER-5-FATOS_COPY_01&utm_medium=email&utm_term=0_8f0e69a1e0-36b23e0126-346166944

    https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,para-entender-temas-que-sao-debatidos-na-suprema-corte-dos-eua,70003451520

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