Carta Mensal

  • Carta Mensal – Julho 2021

    “The four most dangerous words in investing are: ‘this time it’s different.’”

    John Templeton

     

    O mês de Junho marcou mais uma janela de performance positiva para os ativos brasileiros. O Ibovespa teve sua quarta alta mensal consecutiva e o Real continuou a desempenhar uma das melhores performances entre os seus pares, valorizando-se 4.51% contra o dólar. Globalmente, o padrão de comportamento dos ativos foi afetado na segunda metade do mês com a reunião do FOMC, que antecipou uma discussão sobre retiradas de estímulos nos Estados Unidos, favorecendo um achatamento da curva de juros americana e fortalecimento do dólar contra moedas desenvolvidas.

    No mercado internacional, após os estímulos sem precedentes e o avanço das campanhas de vacinação, os dados de atividade econômica e de inflação seguem acima do esperado. A reunião do FOMC no dia 17 movimentou os ativos globais, com mais participantes do comitê precificando altas de juros num horizonte menor. Com isso, duas altas de 0.25% são esperadas para 2023, enquanto sete dos dezoito participantes do comitê passaram a esperar o início do ciclo de alta já em 2022, contra três na reunião anterior. As altas de juros deverão ser posteriores à diminuição do ritmo de compra de ativos e a sua antecipação também trouxe a discussão de redução no ritmo de compra de ativos atual, de US$ 120 bilhões por mês, o que implica menos injeção de liquidez nos mercados. Essa modificação de comunicação do principal banco central no mundo é relevante para o curso da política monetária globalmente e diversos países que ainda estão atrasados no ciclo de alta devem começar a se movimentar nesse sentido, uma vez que a recuperação econômica é cada vez mais concreta e a inflação mundial segue aumentando.

    No Brasil, o cenário para atividade também segue benigno. A tendência das hospitalizações e mortes por covid segue caindo e o processo de vacinação ganhou bastante tração, indicando que provavelmente vamos ter um segundo semestre de reabertura mais consistente. Além disso, diversos fatores deverão amparar a atividade, como os estímulos fiscais que seguem em curso, o alto nível de poupança acumulada, os juros reais estimulativos e termos de troca próximos das máximas. Esse cenário favorece um crescimento do PIB acima de 5% em 2021. A inflação segue pressionada pelos preços administrados, mas diversos fatores dentro dos preços livres mostram aceleração e os núcleos seguem acelerando. O índice de difusão, que corresponde ao percentual de componentes cujos preços estão aumentando, segue acima de 60% desde outubro de 2020. Com isso, o Banco Central deve continuar o processo de subida da taxa Selic até pelo menos 6.5% neste ano. Há fatores de risco adicionais, como o baixo nível de chuvas que impacta as tarifas de energia, a persistência dos choques de oferta que podem impactar preços de bens, e o controle das expectativas para 2022. Com mais inflação e crescimento, os números de arrecadação seguem surpreendendo, melhorando o déficit primário, e a razão dívida/PIB do país segue em queda,  saindo de 89.3% em dezembro de 2020 para 84.5% em maio de 2021.


  • Carta Mensal – Junho 2021

    O Brasil e a Filosofia dos Copos

    “O tempo é um ponto de vista”

    Mário Quintana

    O ano de 2021 está sendo para lá de emocionante. No mercado local, enfrentamos um primeiro trimestre recheado de desafios: aceleração da inflação, piora da pandemia e um ambiente político ainda mais tumultuado do que o normal. Repentinamente, tivemos uma avalanche de notícias negativas, sucessivas quedas nas projeções de crescimento, os juros futuros passaram a precificar uma alta ainda mais rápida da Selic e o dólar chegou a bater R$ 5,84. Curiosamente, dois meses após esse circo que parecia pegar fogo de forma ininterrupta, os ativos locais engataram uma sequência positiva, com a bolsa brasileira renovando a máxima histórica e o real zerando suas perdas contra o dólar no ano. A bipolaridade do noticiário financeiro as vezes é caricata: em pouco mais de sessenta dias o Brasil à la Venezuela virou o “Brasil-Suíça”. A guerra entre os fundamentos e preços, natural do mercado no curto prazo, e a noção humana de continuidade são fatores que acabam contribuindo para visões que enxergam o mesmo copo sempre mais cheio ou mais vazio do que ele é.

    Neste mês, a MP da Capitalização da Eletrobrás foi aprovada na Câmara, a Reforma Administrativa foi admitida pela CCJ e a Reforma Tributária segue avançando com a estratégia do fatiamento, o que deve dar prioridade para a o projeto de reformulação dos impostos federais. Os pormenores das reformas e a sua velocidade em geral estão bem longe do ideal, mas a sinalização da continuidade da agenda do governo é fundamental para  instigar confiança nos agentes de mercado. Considerando o ambiente ainda incerto com relação à pandemia, a queda na popularidade do governo, o fluxo de notícias da CPI da Covid e uma eleição que promete ser complicada, é difícil imaginar mais do que essas reformas que já estão no radar.

    O primeiro trimestre trouxe surpresas positivas para o crescimento. A mediana das projeções para o PIB do primeiro trimestre, apuradas na Bloomberg, chegou a estimar uma queda de 0,2% e estava estimando uma alta de 0,8% até antes da divulgação do indicador. O PIB cresceu 1,2% contra os três últimos meses do ano passado, puxado pela agropecuária (5,7%), indústria (0,7%) e serviços (0,4%). Mesmo com o esgotamento do auxílio emergencial e o impacto das novas restrições à mobilidade, o consumo das famílias caiu apenas 0,1% no período e o investimento cresceu a uma taxa anual de 17%, a maior desde o segundo trimestre 2010. Diversos fatores parecem ter contribuído para a surpresa positiva, como a alta no preço das commodities, reposição de estoques industriais, o alto nível poupança acumulada.

    A inflação segue pressionada pelos preços de bens, principalmente os de alimentos e bens industriais. O IPCA de maio acumulou 8,06% em 12 meses, enquanto o IGP-M acumulou 37,04% no mesmo período. As expectativas de inflação implícitas nos preços de mercado e no relatório Focus seguem uma trajetória de alta, inclusive para o ano de 2022, que é o mais importante para o Banco Central à luz da política monetária. O Banco Central continua com a narrativa dos choques temporários para os dados de inflação e segue prescrevendo uma normalização parcial da Selic. A narrativa da inflação transitória parece fazer sentido, uma vez que o setor de bens segue capturando  o impacto da postergação do consumo em serviços e das políticas econômicas estimulativas. Além disso, a inflação compara os preços correntes com os preços do ano passado, quando a economia estava no auge de uma paralisação deflacionária. Por outro lado, esse tipo de narrativa tem seus riscos. Diversos episódios históricos, especialmente nos emergentes, nos mostram que geralmente não é uma boa decisão ignorar por muito tempo os “fatores transitórios” e os riscos que eles podem carregar na contaminação de expectativas e de outros preços. Hoje, o mercado precifica nos contratos de DI futuro que o COPOM prosseguirá com a normalização completa da taxa Selic até 6,5% no final do ano, diferentemente do que está sendo comunicado pelo comitê até agora.

    A janela apreciativa do real versus o dólar, amparada pela melhora no diferencial de juros, nos dados de crescimento, nos fluxos comerciais e percepção de risco, pode contribuir para um alívio na inflação dos bens comercializáveis. Outros fatores carregam riscos altistas, como o baixo nível de chuvas, que pode afetar preços de energia e também recair sobre os bens industriais. A última ata do COPOM menciona o aumento da bandeira tarifária de energia elétrica como um fator de pressão para a inflação no curto prazo, embora ressalte que o choque também deve ser temporário.

    Com essa dinâmica de crescimento e inflação, os dados fiscais do país guardaram surpresas positivas: o endividamento bruto caiu de 88,99% do PIB para 86,66%  em abril, e a arrecadação federal cresceu 13,62% em relação aos primeiros quatro meses do ano passado, em termos reais. Em suma, os últimos meses mostraram que a agenda de reformas está andando, e que provavelmente teremos mais inflação e mais crescimento, tudo o mais constante. Esses dois vetores compram mais tempo no lado fiscal.

    Essa janela de crescimento é positiva, mas está longe de resolver o problema de longo prazo do país, que demanda reformas mais estruturais. Nosso estoque da dívida está alto versus os nossos pares, e não pode mais continuar a crescer acima da inflação e do crescimento do país de forma consistente. Além disso, não mais contaremos com a demografia jogando a nosso favor;  foi uma janela de oportunidade perdida dentro da nossa história econômica. Entre os anos de 2000 a 2010, nosso PIB real cresceu a uma taxa anualizada de 4,13%. De 2010 para 2020, essa taxa caiu para 0,27% ao ano. Para virarmos um país do copo meio cheio, de fato, é necessário mudar o setup da economia: aumentar a produtividade, simplificar o sistema tributário, melhorar o ambiente de negócios, reabrir a economia, toda a agenda de longo prazo necessária para termos crescimento sustentável.

     

     

     

     

     

  • Carta Mensal – Maio 2021

     

    Inflação e Não Linearidades

    “History and societies do not crawl. They make jumps. They go from fracture to fracture, with a few vibrations in between. Yet we (and historians) like to believe in the predictable, small incremental progression.”

    Nassim Taleb

    O mês de abril foi marcado por uma performance positiva dos ativos de risco em meio a um movimento de acomodação nos juros longos americanos e enfraquecimento do dólar. O Dollar Index, que mede a performance da divisa americana contra uma cesta de moedas desenvolvidas, teve queda de 2%, enquanto o Nasdaq e o S&P 500 subiram respectivamente 5.4% e 5.2%. Diferentemente dos últimos meses, a performance positiva do exterior foi acompanhada por praticamente todos os ativos brasileiros. O real valorizou 4.66% contra o dólar, o Ibovespa teve sua segunda alta mensal consecutiva e tivemos mais de 7 bilhões de reais de entrada do investidor estrangeiro na bolsa. Os índices de títulos públicos pré-fixados e atrelados à inflação também tiveram sua primeira alta mensal no ano.

    No mercado local, as curvas de contaminação por coronavírus ainda estão em patamares altos, mas a dinâmica dos dados segue melhorando e a perspectiva de reabertura nos próximos meses é cada vez mais forte. O Brasil tem conseguido administrar mais de um milhão de doses diárias de vacinas e a vacinação está começando atingir boa parte dos grupos de risco, que representam mais de dois terços das mortes por Covid no país. Os dados de atividade dos dois primeiros meses do ano foram melhores do que o esperado, mostrando resiliência após o esgotamento de alguns programas de estímulo, como o auxílio emergencial. Com uma grande contribuição do câmbio e dos preços de commodities, a inflação de doze meses está rodando 0.85 p.p. acima do teto da meta, em 6.1%, e deve continuar o movimento de alta até arrefecer no segundo semestre. O Copom continuou a trajetória de subida da Selic, com aumento de  0.75%, para 3.5%, conforme o esperado, e ainda sugeriu mais uma elevação no mesmo nível para a próxima reunião. Manteve-se o discurso de “normalização parcial” que o comitê vem adotando, embora as projeções de inflação para 2022 já tenham começado a se movimentar e ultrapassaram o centro da meta no Relatório Focus. Além disso, ressaltou-se novamente que a pressão inflacionária no curto prazo, vinda principalmente de preços administrados, é um choque de natureza temporária.

    O orçamento deste ano foi sancionado no limite do prazo, com vetos parciais para contornar a peça inexequível apresentada inicialmente, mas deixando os gastos da área da saúde fora do teto, assim como em 2020. O Governo e o Congresso fecharam um acordo que pode elevar os gastos de combate à pandemia fora da meta fiscal e do teto de gastos, o que também permitiu a renovação dos programas de crédito a micro e pequenas empresas (Pronampe) e de redução de jornada (Bem). A janela política de curto prazo pode ter desenvolvimentos positivos, como o avanço da reforma administrativa, tributária ou anúncio de privatizações. No entanto, a pressão vinda do Legislativo com a CPI da Covid e o início da campanha presidencial da oposição pode acabar restringindo a possibilidade de alguma reforma mais significativa. Surpresas negativas vindas da má condução da política fiscal ou do ambiente político devem continuar sendo vetores de correção, conforme alertávamos há algum tempo. Outros países da América Latina também estão passando por episódios de turbulência política, como a Colômbia e o Peru, o que pode motivar fluxos maiores de saída do investidor estrangeiro pela região.

    As perspectivas de crescimento econômico seguem se fortalecendo nos EUA, com uma consistente melhora da mobilidade vinda do controle da pandemia e da rápida vacinação. Além disso, em pouco mais de 100 dias de governo, Biden já apresentou mais de 6 trilhões de dólares em propostas de gastos adicionais, quase 30% do PIB americano. Até agora, já foi aprovado o ARP (“American Rescue Plan”), garantindo US$1.9 trilhões em gastos, via pagamentos de US$1,400 para famílias americanas e extensão dos US$300 em benefícios do seguro desemprego até setembro. Com os estímulos, a renda pessoal aumentou 21.1% de fevereiro para março e o consumo no trimestre cresceu a uma taxa anualizada de 10.7%, uma das maiores do Pós-Guerra. O PIB do primeiro trimestre cresceu a uma taxa anualizada de 6.4%. Embora PIB nominal ainda não tenha ultrapassado o nível pré pandemia, os indicadores de atividade de alta frequência seguem apontando para um forte aquecimento da economia. As vendas de casas estão no maior nível desde 2006 e os índices de confiança do consumidor seguem ultrapassando as expectativas. Os custos com mão de obra aumentaram acima do esperado no primeiro trimestre, guiados pela inflação de salários, algo que deve se fortalecer conforme a reabertura se amplifique e a recuperação no mercado de trabalho seja plena.

    O Fed continua a ressaltar o fato de que a recuperação é incompleta, inclusive com menções à taxa de desemprego das pessoas de baixa renda. A postura da autoridade monetária americana diverge de alguns bancos centrais de países desenvolvidos, que começaram a discussão de retiradas de estímulos. Os Banco Centrais do Canadá e da Inglaterra, por exemplo, anunciaram recentemente uma redução no ritmo de compras mensais de ativos. Os preços de commodities industriais estão em alta e algumas das cadeias de suprimentos enfrentam escassez, como a de semicondutores. A inflação de alimentos segue sendo um elemento de pressão em diversos países, o que tende a impactar mais negativamente a cesta de consumo dos emergentes do que desenvolvidos. A tendência de alta da inflação e das taxas de juros, pelo menos de mercado, já parece disseminada.

    Fonte: Bloomberg. Números ponderados a partir do peso dos países no PIB mundial pelo método da PPC

    No curto prazo, os mercados globais parecem estar especialmente preocupados com os impactos de uma volta da inflação no mundo e seu efeito sobre os juros, principalmente por conta da abundância de liquidez e fluxos expressivos para ativos de risco que vivenciamos nos últimos anos. Mais a longo prazo, enquanto tivermos um crescimento acima dos juros reais, provavelmente não veremos uma grande preocupação com relação à sustentabilidade da dívida pública de alguns países desenvolvidos, ou com as políticas fiscais frouxas que vem sendo adotadas há algum tempo.  Segundo dados do UBS, o déficit agregado dos governos em 2020 representou 11% do PIB mundial, enquanto a expansão dos balanços de bancos centrais representou cerca de 13%. A hipótese de que essas políticas fortemente expansionistas representam um risco inflacionário relevante, principalmente nos países desenvolvidos, foi pouco assertiva no passado. Após os mais de 6 anos de expansão de balanço do Fed com a crise de 2008, os preços cresceram de forma modesta, inclusive criando problemas para o atingimento das metas inflacionárias correntes.

    É possível argumentar que o balanço expansionista do Fed já criou alguns problemas no passado, embora não seja clara a relação entre o enxugamento de balanço e a turbulência no mercado de ações em 2018. A política de enxugamento, iniciada em setembro de 2017, durou praticamente 2 anos e diminuiu o balanço de US$ 4.5 trilhões em 2015 para US$ 3.8 trilhões em agosto de 2019, quando o movimento foi revertido. O fato é que hoje essa conta chega a mais de US$ 7.7 trilhões. O balanço do Fed saiu de 24.4% do PIB americano em dezembro de 2015 para 19.3% ao final de 2019. Em abril de 2021, o balanço do Fed representava 36.4% do PIB americano.

    Com a devida licença poética, as economias modernas têm funcionado como um grande carro. O dinheiro é a gasolina, o crédito é o motor, os bancos centrais são os postos e os governos são os motoristas. Estamos em uma altura do campeonato onde os postos baixaram muito o preço da gasolina e o frentista está dirigindo o carro. Os motoristas pisaram tão fundo que a pergunta é: o motor vai superaquecer? Os freios aguentam uma parada mais brusca? Algumas economias são carros usados com freio a tambor desgastado e outras são carros zero com freio a disco nas quatro rodas, mas o problema essencialmente é esse. Se e quando isso vai acontecer, ninguém sabe.

    Dito isso, temos em mente que é necessário ter muito cuidado quando pensamos em tendências, uma vez que a mente humana tem certas dificuldades de incorporar não linearidades ou até perturbações que podem impactar significativamente os resultados das suas projeções, principalmente no mercado financeiro. Acreditamos que o mundo passou por um processo de transformação relevante nas últimas décadas, o que aumentou a sua complexidade. A grande verdade é que não deveríamos tentar fazer grandes projeções sobre o futuro a longo prazo, porque simplesmente não vemos vantagem em fazê-lo.

    O que fica claro é, quanto maior a incerteza sobre esses temas, mais certa é a maneira com a qual temos que agir com relação a eles. Ao longo destes últimos anos, temos sido cada vez mais focados no nosso comportamento como investidores de longo prazo, tentando construir uma carteira que resiste ou até que se beneficia das grandes transformações e do aumento de complexidade. Nesse sentido, é muito mais fácil tentar olhar a variação, o rumo que as coisas estão tomando, e tentar ajustar o seu portfólio, do que fazer previsões sobre o destino do mercado em uma linha reta.

  • Carta Mensal – Abril 2021


    A Importância do Timing

    “Remember, things are never clear until it’s too late.”

    Peter Lynch

     

    No mês de março, os desafios do cenário macroeconômico local voltaram a fomentar episódios de alta volatilidade e de correções, principalmente no mercado de renda fixa. A bolsa brasileira subiu 6% no mês, mas esse número reflete principalmente a inclinação dos juros de mercado e a dinâmica de crescimento no exterior, uma vez que quase 60% do resultado positivo do índice vem de empresas de commodities e de bancos. O país enfrenta provavelmente o pior momento da pandemia, rupturas no ambiente político, queda nas projeções de crescimento, aumento nas projeções de inflação, e uma intensificação das preocupações relacionadas à política fiscal. Como resultado, todos os indicadores relevantes do mercado brasileiro, tanto na renda fixa como na renda variável, fecharam o primeiro trimestre do ano em terreno negativo, com o real desvalorizando 9,41% contra o dólar neste período.

    O cenário internacional continua se mostrando construtivo para a recuperação da atividade econômica, principalmente no grupo de países desenvolvidos que está acelerando a vacinação, como o Reino Unido e os EUA.  O governo americano adiantou de 1º de maio para 19 de abril a data em que adultos de qualquer idade poderão receber pelo menos a primeira dose da vacina contra Covid-19 e o Reino Unido já confirmou a data de reabertura dos comércios considerados não essenciais e de pubs para 12 de abril. O processo de vacinação parece estar levando a uma redução significativa no número de mortes e de hospitalizações, principalmente quando discriminamos os grupos prioritários do restante da população. Esse processo deve iniciar a recuperação dessas economias já no segundo trimestre de 2021.

    Os EUA nos parecem ser o país que sairá melhor e mais rápido da crise, crescendo entre 6,0%  a 7,5% neste ano. O próximo ponto de atenção será a discussão do novo pacote fiscal de mais de 2 trilhões de dólares, que terá foco em infraestrutura e será parcialmente financiado, entre outras coisas, pelo aumento de 7 pontos percentuais na alíquota de impostos corporativos, de 21,0% para 28,0%. O Fed continua a sinalizar que sua taxa de juros de política monetária deve permanecer em 0% por um longo período de tempo e que uma primeira sinalização de redução no ritmo de compra de ativos só deve aparecer a partir do momento em que houver uma clara recuperação do mercado de trabalho e aumento significativo da inflação, acima da meta de 2%. Em alguns países europeus, a vacinação continua relativamente lenta e a incapacidade de conter a curva de infecções no curto prazo engatilhou mais uma rodada de medidas de distanciamento. O impacto dessas medidas no desemprego e atividade em geral está levando o Banco Central Europeu (ECB) a adotar uma postura ainda mais leniente que o Fed, indicando que o nível de estímulos ainda pode aumentar, caso se faça necessário.

    Diversos desenvolvimentos políticos impactaram o mercado brasileiro neste mês: a restituição da elegibilidade do Ex-Presidente Lula, a aprovação de um orçamento inexequível, as seis trocas ministeriais empreendidas pelo Presidente, incluindo na pasta da saúde, etc. Acreditamos que o teatro político que estamos vendo desde a metade de fevereiro não reflete simplesmente a natureza complexa das instituições brasileiras, mas uma conjunção latente da piora na situação sanitária e do cenário macroeconômico. Os problemas seculares de descontrole do gasto público se somaram às sequelas do enfrentamento à pandemia.

    Em 2020, as contas públicas registraram o sétimo déficit consecutivo do país em 702,9 bilhões de reais (9,49% do PIB), enquanto o Banco Central empreendeu um corte agressivo que renovou a mínima histórica da taxa selic em 250 pontos-base, para 2%. As fortes medidas estimulativas, incluindo o gasto de 322 bilhões de reais com o auxílio emergencial, contribuíram para uma revisão significativa na projeção de queda do PIB de 2020, que caiu 4,1%, mas também contribuíram para um agravamento do problema da dívida pública, que saiu de cerca de 50% do PIB em 2010 para 90% do PIB neste ano.

    O IPCA do ano passado foi bastante impactado pela inflação de bens, que refletia o tamanho e a extensão do auxílio emergencial. Atualmente, há diversos outros fatores de preocupação. No passado, a correlação inversa entre os termos de troca e a taxa de câmbio blindou parte do impacto vindo da inflação de bens comercializáveis, cuja dinâmica de preço costuma se dar no exterior. No entanto, a depreciação consistente do câmbio tem contribuído para importarmos inflação externa, mesmo com um alto nível de ociosidade na economia. O impacto desses choques seria muito menos preocupante se a dinâmica fiscal estivesse favorável, mas provavelmente veremos o Banco Central favorecendo um ciclo de alta mais agressivo para não perder as expectativas inflacionárias de 2022.

    A dinâmica dos problemas locais já transcendeu a dimensão econômica. O alto nível de mortes e a lotação das UTI’s pressiona os governantes a adotarem políticas de distanciamento mais rígidas, levando a mais desemprego e menos atividade. Isso diminui a popularidade do governo, interrompe as reformas e cria mais gastos, como a renovação dos 44 bilhões de reais de auxílio emergencial, ou aprovação do orçamento “criativo”. Como estamos à beira do precipício fiscal, os mercados reagem mal, apertando as condições financeiras e exigindo prêmio de risco. Com isso, o dólar, que já vive uma dinâmica externa positiva por conta da subida dos juros longos americanos, se mantém em patamares mais fortes, pressionando ainda mais a inflação.

    A entrada do Ex-Presidente Lula na corrida eleitoral pode ser ilustrada pela frase frequentemente atribuída ao Ex-Ministro Pedro Malan: “No Brasil, até o passado é incerto”. E o mercado cobra prêmios pela incerteza. Acreditamos que o país enfrenta uma tempestade perfeita de desafios, porém alguns de vida útil contratada. Muitos ativos locais aparentam estar muito descontados, mas não significa que esse desconto é incoerente.

    A pandemia pode começar a mostrar melhoras dentro de alguns meses, com ênfase no segundo semestre. A velocidade de vacinação no país tem acelerado notavelmente e a antecipação das campanhas de vacinação nos países desenvolvidos acelera a disponibilidade de insumos para produção local. Com isso, diversas das variáveis que estavam pressionando a política fiscal e o cenário político podem sair de cena. Caso isso ocorra, há espaço para coordenação de reformas e de uma agenda mais positiva, o que certamente será incorporado nos preços de mercado. Por outro lado, o atraso dessa perspectiva nos aproxima cada vez mais da eleição de 2022. O timing da pandemia nunca foi tão importante.

     

     

  • CARTA MENSAL – MARÇO 2021

     

    “An emerging market is a country where politics matters at least as much as economics to the market “

    Ian Bremmer

    O mês de fevereiro deu continuidade à correção de preços no mercado local, com rendimentos negativos tanto na bolsa como nos títulos do governo pré-fixados e indexados à inflação. Acreditamos que esse movimento se dê principalmente por três fatores: a piora dos fundamentos macroeconômicos no Brasil, o avanço da pandemia e o aumento da percepção de risco fiscal e político no país. No exterior, a combinação entre o ambiente super estimulativo e a normalização da atividade seguem contribuindo para uma expectativa de inflação mais alta. Além disso, commodities cíclicas como o petróleo e o minério de ferro têm tido altas relevantes de quase 20% ao longo deste mês, o que pressiona os preços de energia e de materiais básicos.

    Nos mercados desenvolvidos, o ritmo mais forte da campanha de vacinação acelerou as perspectivas de reabertura, com destaque para Estados Unidos e Reino Unido, que já vacinaram respectivamente 23,5% e 31,4% da sua população. Além disso, tivemos a aprovação emergencial da vacina da Johnson & Johnson pela FDA, que requer apenas uma dose e é de mais fácil armazenagem. Continuamos a ver uma queda consistente nas hospitalizações, principalmente nos grupos que já tiveram acesso à vacinas.

    O pacote fiscal americano de US$ 1.9 trilhão caminha para ser aprovado em meados deste mês e o Fed segue com uma comunicação mais tolerante com relação à inflação. No geral, o panorama internacional continua positivo para atividade, mas o aumento dos juros reais contribuiu para a correção em alguns ativos, como o ouro, que caiu 6,78% no mês. Caso a abertura do juro real seja mais abrupta do que o esperado, o cenário poderia provocar uma desalavancagem mais forte, instigar correções nos mercados de ações e de crédito, e aumentar a pressão por uma redução dos estímulos.

    No Brasil, o avanço da pandemia continua a preocupar. O ritmo da vacinação continua lento e a variante de Manaus parece estar se espalhando mais rapidamente por outras regiões do país. Recentemente, doze dos estados levantaram novas medidas de restrição e alguns optaram novamente pelo fechamento de serviços não essenciais. O agravamento da pandemia deve gerar uma defasagem do processo de recuperação econômica e pressionar ainda mais o governo para renovar o auxílio emergencial, que deverá vir em 4 rodadas de R$250 reais para 46 milhões de brasileiros, com custo total estimado em R$ 46 Bi.

    A PEC Emergencial segue sendo o item mais importante da pauta política do país no curto prazo. O grande risco associado a este tema seria uma desidratação relevante dos gatilhos fiscais que viriam como contrapartida para a renovação do auxílio. Alguns temas, que provavelmente foram colocados como moeda de negociação, já encontraram resistência no Senado, como o piso para saúde e educação.

    O episódio da demissão do Presidente da Petrobrás, após a defesa  pública da política de preços que segue a paridade internacional, acrescentou volatilidade aos mercados, com os investidores estrangeiros retirando R$9,2 bilhões da bolsa em apenas três dias após o anúncio da decisão.

    O real foi uma das piores divisas do mês, acumulando desvalorização de 7,42% no ano até o final de fevereiro, mesmo com uma intervenção do Bacen que somou US$ 5 bilhões via derivativos e mercado a vista.  A atuação recente do Banco Central tem chamado atenção do mercado, uma vez que a autoridade interveio no passado com a premissa de diminuir a volatilidade do câmbio por questões pontuais, o que pode não ser o caso desta vez. A aventura populista do governo pode criar uma espiral negativa no câmbio e recair sobre a inflação, que já está rodando acima do centro da meta e assim deve permanecer pela maior parte do ano. Isso prescreve a necessidade de normalização da taxa Selic, que já deve iniciar o ciclo de alta na próxima reunião.

    Entendemos que o cenário que se desenha à frente será volátil no mercado local, conforme apontamos nas últimas cartas, enquanto enfrentamos um dos piores momentos da pandemia e passamos por uma agenda de discussão fiscal que mexe com diversos interesses eleitoreiros.


  • CARTA MENSAL – FEVEREIRO 2021

     

    “You want to have a future where you are expecting things to be better, not one where you are expecting things to be worse.”

    Elon Musk

     

    O mês de janeiro foi marcado pela alta volatilidade nos preços de ativos, tanto no cenário internacional como local. Globalmente, as campanhas de vacinação vão ganhando tração e parecem gerar uma queda significante nos níveis de hospitalizações, o que favorece uma perspectiva de recuperação mais ampla da economia e o tão esperado alívio nas medidas de distanciamento. Por outro lado, algumas notícias com relação a novas variantes da doença e novas medidas de distanciamento geraram questionamentos com relação ao ritmo da recuperação e a volta a normalidade. Além disso, tivemos alguns episódios especulativos no mercado que contribuíram para mais volatilidade, porém acreditamos que são eventos irrisórios considerando nosso horizonte relevante de investimento.

    No Brasil, a eleição para a presidência da Câmara e do Senado também gerou altos e baixos, com todos os candidatos à presidência das casas se mostrando inclinados a discutir uma renovação do auxílio emergencial. Os candidatos apoiados pelo governo foram eleitos em ambas as casas, o que afastou algumas preocupações imediatas, como a pauta de impeachment do Presidente e criou uma perspectiva de andamento da agenda de reformas.

    Nos Estados Unidos, a vitória na eleição para o Senado no estado da Georgia propiciou um aumento do poder dos Democratas e o andamento de outros itens da agenda do partido, como a aprovação de um maior pacote de estímulos fiscais, que segue em discussão e provavelmente se materializará. A somatória dos pacotes fiscais em resposta à pandemia chegará a quase 25% do PIB americano, se o pacote for aprovado. Além disso, o Fed que continua a sinalizar uma política monetária super estimulativa, mais tolerante com a inflação, e as vacinas devem promover a normalização da atividade, recuperando setores mais afetados pelo distanciamento. Esses vetores conspiraram para expectativas de inflação crescentes e um aumento relevante das taxas nominais dos títulos de 10 anos do governo americano. O cenário internacional segue uma trajetória construtiva para a recuperação da atividade, uma vez que os países desenvolvidos
    seguem vacinando sua população e sinalizando mais políticas estimulativas.

    No Brasil, os dados de atividade seguem surpreeendendo positivamente. O mercado de trabalho está mostrando uma dinâmica de recuperação rápida e principalmente os dados do setor industrial estão trazendo perspectivas melhores. A tendência dos preços aparenta seguir uma trajetória altista  após as políticas estimulativas empreendidas durante a pandeima, com alguns riscos adicionais, como a alta do preço das commoditites sem a contrapartida de enfraquecimento do dólar.

    Continuamos a acreditar que o COPOM deve começar o ciclo de normalização da taxa de juros entre suas duas próximas reuniões, com a Selic ficando próxima de 4% ainda neste ano. Com relação aos desafios fiscais, acreditamos que o país enfrenta um problema secular em nossa história e alguns agravantes vindo da maneira como nosso sistema político é estruturado, mas o panorama ficou mais positivo. Por enquanto, os eleitos para as presidências das casas se mostraram favoráveis a uma renovação do auxílio emergencial por alguns meses, mas também endossaram um discurso alinhado com o avanço da agenda de reformas e a pauta econômica do governo.

    A estrada de reformas que precisamos seguir deve ser tortuosa nos meses à frente e historicamente enfrenta barreiras políticas. Outro ponto que agrava esta situação é a relativa proximidade das eleições de 2022 e a deterioração da aprovação do governo, mostrada nas pesquisas mais recentes. Esses fatores podem propiciar soluções politicamente aceitáveis, mas economicamente desafiadoras. Por enquanto, o mercado está de lua de mel com o novo grupo de políticos que controla as casas; e estes têm mostrado algum comprometimento com algumas reformas, mas resta saber se a prática conversará com a retórica. Seguimos especialmente atentos ao ritmo de vacinação dos países e desdobramentos da pandemia, que ainda deixa incertezas relevantes no horizonte.


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