Carta Mensal Taler – Outubro 2020

“Eu queria um final perfeito. Agora eu aprendi, da maneira mais difícil, que alguns poemas não rimam e algumas histórias não têm um começo, meio e fim claros.”

 Gilda Radner

O mês de setembro foi marcado por mais uma onda de desconfiança no mercado local. A sinalização de ruptura com a agenda de consolidação fiscal contribuiu para o cenário de aumento nos prêmios de risco e queda do Ibovespa. No âmbito internacional, os mercados também foram tomados por um movimento significativo de correção. Os indicadores de atividade começaram a sinalizar um arrefecimento do ritmo de recuperação. Enquanto os EUA enfrentam dificuldades políticas para estender o pacote de estímulos em um contexto eleitoral, a Zona do Euro enfrenta uma segunda onda de Covid-19 que, apesar de menos letal, apresentou taxas de contaminação elevadas e já respingou no setor de serviços.

No Brasil, os indicadores continuam a sinalizar um bom ritmo de recuperação da atividade e a pandemia continua a diminuir de tamanho, embora Manaus esteja sinalizando a vinda de uma 2ª onda menos letal. A agenda política voltou a afetar negativamente a performance dos mercados. O destaque do mês foram as discussões relativas ao novo programa assistencial do governo, o Renda Cidadã, que deve dobrar o tamanho do Bolsa Família. Para financiar o programa, o Governo descartou as discussões de cortes de despesas e propôs a liberação de cerca de R$ 39 Bi do orçamento em 2021 por meio da postergação do pagamento de precatórios e uso de uma parcela dos recursos do novo Fundeb.

Esta manobra, vista como uma medida para driblar o teto de gastos, foi mal percebida pelo mercado e levou a uma deterioração nos preços de ativos de renda variável e renda fixa. O Ibovespa teve o segundo mês seguido de queda (4,8%), acumulando uma baixa anual de 18,2%. Nos mercados de renda fixa, o contrato futuro de 10 anos para a taxa DI subiu de 7,40% para 8,0%; enquanto o índice IMA-B cedeu 1,51% no mês. A inclinação nas curvas de juros fragilizou ainda mais a situação do Tesouro Nacional, que está sendo obrigado a fazer emissões com volumes extraordinários e vencimentos mais curtos.

Outro movimento de atenção no mês foram as sucessivas marcações negativas no mercado secundário de LFT’s (Tesouro Selic), algo que não acontecia há 18 anos. As consecutivas reduções da taxa Selic e o aumento da necessidade de financiamento do setor público, principalmente no curto prazo, geraram impactos diretos nos preços.

A sinalização negativa na agenda de reformas levou o Banco Central a adotar um tom mais rígido com a situação fiscal do país, o que implicaria em um ciclo precoce de alta nas taxas de juros. Aparentemente, as respostas negativas foram suficientes para postergar o programa social do Governo para um período mais próximo das eleições nacionais. No entanto, a agenda fiscal é de difícil resolução, visto que já carregávamos uma situação fiscal frágil antes da crise e optamos por adotar um nível de estímulo desproporcional ao dos nossos pares no mundo.

Nos Estados Unidos, a eleição tem de tudo para ser turbulenta, assim como estão sendo os debates entre os candidatos. As pesquisas de intenção a nível nacional seguem mostrando Biden na frente, inclusive com uma boa margem em alguns dos chamados “Swing States”, estados com baixo grau de fidelidade a um único partido e que geralmente decidem as eleições americanas. Caso o candidato democrata seja eleito, provavelmente teríamos um aumento dos impostos corporativos, mas o ponto focal ainda é o controle das casas legislativas. Um controle Democrata no Senado poderia mudar a dinâmica de um eventual governo Biden e abrir espaço para a ala mais anti-mercado do partido, o que poderia gerar um cenário de maior estresse. Além disso, se derrotado, Trump provavelmente deve contestar a eleição via correios com o precedente de Bush Vs Gore (2000), o que atrasaria o resultado das eleições e acrescentaria volatilidade aos mercados.

As principais economias europeias tiveram um notável ressurgimento das infecções por SARS-COV-2, porém com uma taxa de letalidade menor do que o surto anterior. Os melhores protocolos de saúde e maior conhecimento sobre a prevenção da doença podem ter contribuído para a evolução mais contida das hospitalizações. Além disso, as autoridades sinalizaram que não devem adotar medidas de restrição a nível nacional. No entanto, ainda não é certo o impacto que a recaída da pandemia pode ter sobre a recuperação, principalmente se o surto instigar o isolamento voluntário da população. A última minuta do Banco Central Europeu (ECB) sinalizou maior preocupação com relação ao cumprimento da meta inflacionária e a apreciação recente do Euro, o que sugere uma prorrogação no programa de compras emergenciais de ativos (PEEP).

Dados os desafios para o ritmo de recuperação da economia global, agenda doméstica incerta, e eleições que devem ser conturbadas nos EUA, provavelmente teremos um final de ano com alta volatilidade. As medidas de distanciamento da pandemia e os estímulos sem precedentes causaram o choque mais profundo e a recuperação mais rápida do Pós-Guerra. A volta veloz dos mercados em meio à liquidez abundante parecia sugerir um cenário de recuperação relativamente rápido e certo. No entanto, os últimos meses e a própria História nos mostram que nada é tão fácil ou simples quanto se parece. Seguimos atentos à pandemia e suas implicações de médio prazo, aos indicadores de atividade e ao cenário fiscal brasileiro, que é digno de especial atenção nos próximos meses.

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