Carta Mensal – Setembro 2021

“Em Que Ano Estamos, Marty?”

“A nossa percepção de que não temos tempo é uma das marcas mais distintas da cultura ocidental moderna”

 Margaret Visser

O mês de agosto foi marcado por mais uma rodada de aversão a risco no mercado brasileiro. Em grande medida, os ativos locais sofreram com uma correção associada à turbulência política e incertezas fiscais, dois temas que parecem indissociáveis, mas também com uma piora marginal de alguns fundamentos econômicos. As perspectivas inflacionárias seguem se deteriorando, tanto para 2021 como 2022, e as projeções de crescimento estão sofrendo mais uma rodada de revisões para baixo. Na renda fixa, os contratos futuros de juros nominais passaram a precificar uma Selic acima de 8.0% ainda no final deste ano. A performance dos títulos públicos pré-fixados e indexados à inflação, com vencimentos médios e longos, foi negativa. O Ibovespa, que chegou a acumular uma alta anual de 9.9% em junho, voltou a ficar no terreno negativo. O ponto mais curioso deste processo é que os investidores estrangeiros registraram uma entrada líquida de mais de R$ 7 bilhões no mês, enquanto os investidores institucionais locais e pessoas físicas vendiam suas posições na bolsa.

No cenário internacional, o ritmo da atividade arrefeceu, mas permanece em níveis altos. As bolsas europeia e americana tiveram performance positiva no mês, enquanto a curva de juros americana abriu e o dólar se fortaleceu frente às divisas desenvolvidas. A desaceleração do crescimento global é natural dado o ritmo muito forte de recuperação que foi observado trimestre anterior, além do esgotamento parcial dos impulsos fiscais e efeitos econômicos, embora reduzidos, da variante Delta. O impacto mais notável que essa variante está tendo para os países desenvolvidos está vindo na inflação mais alta, uma vez que há alta dependência por asiáticos nas cadeias produtivas dos países desenvolvidos, o que está causando um desequilíbrio adicional na oferta de produtos. Além disso, a China se tornou um ponto fraco neste processo de recuperação do segundo semestre, com a retirada dos impulsos fiscais e de crédito e intervenções em setores importantes para o PIB. A ideia do Partido Comunista Chinês é reorientar estrategicamente o crescimento do país em torno de outros setores, como inteligência artificial e energia renovável. Em específico, o impacto das intervenções no setor de construção está sendo negativo para preços de commodities metálicas, como o minério de ferro.

No Brasil, fica cada vez mais claro que as preocupações associadas ao ano eleitoral têm potencial de exacerbar qualquer reação do mercado a novos desafios. Embora exista a perspectiva da nossa dívida bruta fechar o ano abaixo de 80% do PIB e os números de arrecadação federal sigam surpreendendo positivamente, os últimos meses mostraram um mercado preocupado com teto de gastos, em meio a um aumento dos gastos estimados com precatórios e a perspectiva incremento dos gastos com programas sociais. A Câmara aprovou o pedaço mais polêmico e desnecessário da reforma tributária, que trata do imposto de renda, com recepção também negativa por parte do mercado. Embora o projeto ainda deva sofrer alterações no Senado e sua aprovação ainda seja um ponto de interrogação, o projeto atual traz uma redução do IRPJ e do imposto sobre dividendos em relação ao texto inicial. Segundo o Instituto Fiscal Independente (IFI), os moldes atuais da proposta devem gerar uma perda arrecadatória da ordem de quase R$ 30 bilhões só em 2022. Com relação à crise hídrica, o cenário também está mais desafiador. Os últimos três meses foram os mais secos das suas respectivas séries históricas, o que encareceu novamente a bandeira tarifária e instigou o governo a lançar um programa voluntário para economia de energia. Fora o risco de apagões e/ou racionamento, o que dependerá do nível de chuvas dos próximos meses, o efeito da situação atual já é uma inflação um pouco maior e menos crescimento. Dito isso, mesmo com esses desafios, o PIB deve crescer mais de 5.0% ainda neste ano.

O contexto atual do mercado brasileiro parece bastante adequado para aquele investidor que combina, citando o icônico Charlie Munger, “extrema paciência com extrema capacidade de decisão”. É claro que a dinâmica fundamental do mercado sempre foi trazer fluxos de caixa futuros a valor presente e que, em grande parte, tudo o que ocorreu no mercado brasileiro nos últimos meses reflete a visão hoje “consensual” de que os riscos estão maiores. Tudo isso cobra o seu preço e é um processo natural. No entanto, diferentemente do filme “De Volta para o Futuro”, o mercado não pode entrar na sua máquina do tempo e efetivamente ver o que vai acontecer à frente. Desde o início da pandemia, muitas das premissas com as quais os economistas e agentes de mercado trabalhavam se mostraram bastante voláteis, além de muitas se provarem incorretas. Apesar da nossa grande necessidade de criar narrativas e tentar antecipar o futuro, ainda estamos no ano de 2021, com uma boa perspectiva de recuperação econômica no país, além vários ativos que estão negociando em patamares interessantes, quando olhamos para o longo prazo. Com o nível de ruído que estamos vendo nos noticiários e a volatilidade que estamos vendo nos ativos, é fundamental ter paciência para aproveitar as oportunidades que poderão surgir.

 

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