CARTA MENSAL – MARÇO 2021

 

“An emerging market is a country where politics matters at least as much as economics to the market “

Ian Bremmer

O mês de fevereiro deu continuidade à correção de preços no mercado local, com rendimentos negativos tanto na bolsa como nos títulos do governo pré-fixados e indexados à inflação. Acreditamos que esse movimento se dê principalmente por três fatores: a piora dos fundamentos macroeconômicos no Brasil, o avanço da pandemia e o aumento da percepção de risco fiscal e político no país. No exterior, a combinação entre o ambiente super estimulativo e a normalização da atividade seguem contribuindo para uma expectativa de inflação mais alta. Além disso, commodities cíclicas como o petróleo e o minério de ferro têm tido altas relevantes de quase 20% ao longo deste mês, o que pressiona os preços de energia e de materiais básicos.

Nos mercados desenvolvidos, o ritmo mais forte da campanha de vacinação acelerou as perspectivas de reabertura, com destaque para Estados Unidos e Reino Unido, que já vacinaram respectivamente 23,5% e 31,4% da sua população. Além disso, tivemos a aprovação emergencial da vacina da Johnson & Johnson pela FDA, que requer apenas uma dose e é de mais fácil armazenagem. Continuamos a ver uma queda consistente nas hospitalizações, principalmente nos grupos que já tiveram acesso à vacinas.

O pacote fiscal americano de US$ 1.9 trilhão caminha para ser aprovado em meados deste mês e o Fed segue com uma comunicação mais tolerante com relação à inflação. No geral, o panorama internacional continua positivo para atividade, mas o aumento dos juros reais contribuiu para a correção em alguns ativos, como o ouro, que caiu 6,78% no mês. Caso a abertura do juro real seja mais abrupta do que o esperado, o cenário poderia provocar uma desalavancagem mais forte, instigar correções nos mercados de ações e de crédito, e aumentar a pressão por uma redução dos estímulos.

No Brasil, o avanço da pandemia continua a preocupar. O ritmo da vacinação continua lento e a variante de Manaus parece estar se espalhando mais rapidamente por outras regiões do país. Recentemente, doze dos estados levantaram novas medidas de restrição e alguns optaram novamente pelo fechamento de serviços não essenciais. O agravamento da pandemia deve gerar uma defasagem do processo de recuperação econômica e pressionar ainda mais o governo para renovar o auxílio emergencial, que deverá vir em 4 rodadas de R$250 reais para 46 milhões de brasileiros, com custo total estimado em R$ 46 Bi.

A PEC Emergencial segue sendo o item mais importante da pauta política do país no curto prazo. O grande risco associado a este tema seria uma desidratação relevante dos gatilhos fiscais que viriam como contrapartida para a renovação do auxílio. Alguns temas, que provavelmente foram colocados como moeda de negociação, já encontraram resistência no Senado, como o piso para saúde e educação.

O episódio da demissão do Presidente da Petrobrás, após a defesa  pública da política de preços que segue a paridade internacional, acrescentou volatilidade aos mercados, com os investidores estrangeiros retirando R$9,2 bilhões da bolsa em apenas três dias após o anúncio da decisão.

O real foi uma das piores divisas do mês, acumulando desvalorização de 7,42% no ano até o final de fevereiro, mesmo com uma intervenção do Bacen que somou US$ 5 bilhões via derivativos e mercado a vista.  A atuação recente do Banco Central tem chamado atenção do mercado, uma vez que a autoridade interveio no passado com a premissa de diminuir a volatilidade do câmbio por questões pontuais, o que pode não ser o caso desta vez. A aventura populista do governo pode criar uma espiral negativa no câmbio e recair sobre a inflação, que já está rodando acima do centro da meta e assim deve permanecer pela maior parte do ano. Isso prescreve a necessidade de normalização da taxa Selic, que já deve iniciar o ciclo de alta na próxima reunião.

Entendemos que o cenário que se desenha à frente será volátil no mercado local, conforme apontamos nas últimas cartas, enquanto enfrentamos um dos piores momentos da pandemia e passamos por uma agenda de discussão fiscal que mexe com diversos interesses eleitoreiros.


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