Carta Mensal – Junho 2022

“A falta de disciplina monetária tornou-se uma marca registrada da globalização desenfreada. Os bancos centrais não conseguiram fornecer uma base estável para os mercados financeiros mundiais e para uma economia global cada vez mais dependente de ativos.”  Stephen Roach

No mês de maio, o mercado internacional foi claramente marcado pelo aumento do medo de uma recessão econômica, principalmente pela figura apertada dos mercados de trabalho em países desenvolvidos em conjunto com a continuidade da alta em diversos preços de commodities, em especial as commodities energéticas. Como resultado, tivemos a queda nas taxas de juros de longo prazo das treasuries americanas e um enfraquecimento do dólar globalmente. No Brasil, foi um mês positivo para ativos de risco, com performance positiva para o Real, o Ibovespa e os fundos multimercados.

Nos EUA, a piora marginal dos dados de atividade e dos resultados de empresas de consumo com capital aberto catalisou esse medo com relação à atividade econômica na maior economia do mundo.  Os dados de mercado de trabalho mostraram uma desaceleração na criação de vagas de trabalho, com o desemprego estável em 3.6%. O Banco Central americano descartou a possibilidade de aumentar o ritmo de normalização da taxa de juros, e deve manter o ritmo atual de 0.50% após a reunião de julho. No entanto, parece claro que o nível atual dos dados de atividade e do mercado de trabalho é inconsistente com um cenário de recessão econômica. Dada a situação inflacionária atual, faz sentido os juros de mercado continuarem a testar novos patamares de alta à frente, uma vez que as subidas de juros precificadas pelos mercados futuros ainda não parecem ser suficientes para conter o desvio da inflação em relação à meta.

Na Europa, o BCE decidiu manter a taxa de juros de política inalterada em sua última reunião, mas começou a sinalizar um discurso de maior preocupação com a inflação, cuja leitura preliminar em maio mostrou alta de 8.1%, a maior 1997. O Banco Central Europeu deve aumentar a taxa de política em 0.25% na reunião de julho, além de terminar a política de compra de ativos. A China permanece com um difícil problema para entregar a meta de crescimento econômico traçada pelo Partido Comunista, mas a sinalização de novos estímulos setoriais a perspectiva de reabertura da economia passa uma noção mais positiva para o crescimento à frente.

No Brasil, o comportamento dos ativos durante o mês pareceu estar mais correlacionado com a narrativa do mercado internacional do que com a dinâmica local.  Notamos, por exemplo, a alteração da dinâmica do fluxo estrangeiro, com fortes entradas diárias ao longo da segunda metade do mês, quando as notícias sobre a reabertura chinesa começaram a aparecer e os dados econômicos surpreenderam positivamente o mercado. O PIB cresceu 1.0% no primeiro trimestre de 2022. Apesar da leitura estar um pouco aquém do que projetava o consenso de mercado (1.2%), essas estimativas foram sucessivamente revisadas para cima ao longo do ano. Esperamos crescimento positivo e acima de 1% em 2022, embora seja esperada uma contração de atividade no segundo semestre. Do lado da oferta, o setor de serviços foi, conforme esperado, o motor do crescimento do PIB, com desempenho fraco do setor industrial e o setor agrícola impactado pela quebra de safra. Sob a ótica da demanda, a alta na atividade veio principalmente do consumo das famílias e exportações, com queda no investimento. O mercado de trabalho segue mostrando uma queda mais rápida do desemprego e da renda média, indicando que a adição de empregos provavelmente está associada a empregos de menor qualificação. As estatísticas recentes têm mostrado boas notícias para a atividade local e desfavoráveis para a inflação.

No front político, além das notícias relacionas à eleição, que ganharão importância crescente nos próximos quatro meses, a alta das commodities de energia segue criando incentivos que causam preocupação para a nossa política fiscal. Com a alta dos preços, a Câmara já aprovou um projeto (PLP 18/2022) que cria um teto de 17% para o ICMS de bens, como combustíveis e energia elétrica.  Além disso, o Governo verbaliza a intenção de aprovar uma PEC que zera os impostos federais e o ICMS dos estados sobre o diesel e o gás de cozinha, em uma situação em que a União teria responsabilidade de ressarcir a perda arrecadatória dos estados.

z
Fechar