O Brasil e a Filosofia dos Copos

“O tempo é um ponto de vista”

Mário Quintana

O ano de 2021 está sendo para lá de emocionante. No mercado local, enfrentamos um primeiro trimestre recheado de desafios: aceleração da inflação, piora da pandemia e um ambiente político ainda mais tumultuado do que o normal. Repentinamente, tivemos uma avalanche de notícias negativas, sucessivas quedas nas projeções de crescimento, os juros futuros passaram a precificar uma alta ainda mais rápida da Selic e o dólar chegou a bater R$ 5,84. Curiosamente, dois meses após esse circo que parecia pegar fogo de forma ininterrupta, os ativos locais engataram uma sequência positiva, com a bolsa brasileira renovando a máxima histórica e o real zerando suas perdas contra o dólar no ano. A bipolaridade do noticiário financeiro as vezes é caricata: em pouco mais de sessenta dias o Brasil à la Venezuela virou o “Brasil-Suíça”. A guerra entre os fundamentos e preços, natural do mercado no curto prazo, e a noção humana de continuidade são fatores que acabam contribuindo para visões que enxergam o mesmo copo sempre mais cheio ou mais vazio do que ele é.

Neste mês, a MP da Capitalização da Eletrobrás foi aprovada na Câmara, a Reforma Administrativa foi admitida pela CCJ e a Reforma Tributária segue avançando com a estratégia do fatiamento, o que deve dar prioridade para a o projeto de reformulação dos impostos federais. Os pormenores das reformas e a sua velocidade em geral estão bem longe do ideal, mas a sinalização da continuidade da agenda do governo é fundamental para  instigar confiança nos agentes de mercado. Considerando o ambiente ainda incerto com relação à pandemia, a queda na popularidade do governo, o fluxo de notícias da CPI da Covid e uma eleição que promete ser complicada, é difícil imaginar mais do que essas reformas que já estão no radar.

O primeiro trimestre trouxe surpresas positivas para o crescimento. A mediana das projeções para o PIB do primeiro trimestre, apuradas na Bloomberg, chegou a estimar uma queda de 0,2% e estava estimando uma alta de 0,8% até antes da divulgação do indicador. O PIB cresceu 1,2% contra os três últimos meses do ano passado, puxado pela agropecuária (5,7%), indústria (0,7%) e serviços (0,4%). Mesmo com o esgotamento do auxílio emergencial e o impacto das novas restrições à mobilidade, o consumo das famílias caiu apenas 0,1% no período e o investimento cresceu a uma taxa anual de 17%, a maior desde o segundo trimestre 2010. Diversos fatores parecem ter contribuído para a surpresa positiva, como a alta no preço das commodities, reposição de estoques industriais, o alto nível poupança acumulada.

A inflação segue pressionada pelos preços de bens, principalmente os de alimentos e bens industriais. O IPCA de maio acumulou 8,06% em 12 meses, enquanto o IGP-M acumulou 37,04% no mesmo período. As expectativas de inflação implícitas nos preços de mercado e no relatório Focus seguem uma trajetória de alta, inclusive para o ano de 2022, que é o mais importante para o Banco Central à luz da política monetária. O Banco Central continua com a narrativa dos choques temporários para os dados de inflação e segue prescrevendo uma normalização parcial da Selic. A narrativa da inflação transitória parece fazer sentido, uma vez que o setor de bens segue capturando  o impacto da postergação do consumo em serviços e das políticas econômicas estimulativas. Além disso, a inflação compara os preços correntes com os preços do ano passado, quando a economia estava no auge de uma paralisação deflacionária. Por outro lado, esse tipo de narrativa tem seus riscos. Diversos episódios históricos, especialmente nos emergentes, nos mostram que geralmente não é uma boa decisão ignorar por muito tempo os “fatores transitórios” e os riscos que eles podem carregar na contaminação de expectativas e de outros preços. Hoje, o mercado precifica nos contratos de DI futuro que o COPOM prosseguirá com a normalização completa da taxa Selic até 6,5% no final do ano, diferentemente do que está sendo comunicado pelo comitê até agora.

A janela apreciativa do real versus o dólar, amparada pela melhora no diferencial de juros, nos dados de crescimento, nos fluxos comerciais e percepção de risco, pode contribuir para um alívio na inflação dos bens comercializáveis. Outros fatores carregam riscos altistas, como o baixo nível de chuvas, que pode afetar preços de energia e também recair sobre os bens industriais. A última ata do COPOM menciona o aumento da bandeira tarifária de energia elétrica como um fator de pressão para a inflação no curto prazo, embora ressalte que o choque também deve ser temporário.

Com essa dinâmica de crescimento e inflação, os dados fiscais do país guardaram surpresas positivas: o endividamento bruto caiu de 88,99% do PIB para 86,66%  em abril, e a arrecadação federal cresceu 13,62% em relação aos primeiros quatro meses do ano passado, em termos reais. Em suma, os últimos meses mostraram que a agenda de reformas está andando, e que provavelmente teremos mais inflação e mais crescimento, tudo o mais constante. Esses dois vetores compram mais tempo no lado fiscal.

Essa janela de crescimento é positiva, mas está longe de resolver o problema de longo prazo do país, que demanda reformas mais estruturais. Nosso estoque da dívida está alto versus os nossos pares, e não pode mais continuar a crescer acima da inflação e do crescimento do país de forma consistente. Além disso, não mais contaremos com a demografia jogando a nosso favor;  foi uma janela de oportunidade perdida dentro da nossa história econômica. Entre os anos de 2000 a 2010, nosso PIB real cresceu a uma taxa anualizada de 4,13%. De 2010 para 2020, essa taxa caiu para 0,27% ao ano. Para virarmos um país do copo meio cheio, de fato, é necessário mudar o setup da economia: aumentar a produtividade, simplificar o sistema tributário, melhorar o ambiente de negócios, reabrir a economia, toda a agenda de longo prazo necessária para termos crescimento sustentável.

 

 

 

 

 

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