Carta Mensal – Janeiro 2022

“The thing I have discovered about working with personal finance is that the good news is that it is not rocket science. Personal finance is about 80 percent behavior. It is only about 20 percent head knowledge.“

Dave Ramsey

O ano de 2021 foi um teste duro para a fábrica de previsões do mercado financeiro. Por um lado, a forte recuperação econômica decorrente da vacinação no mundo se concretizou e atingiu o seu ápice no primeiro semestre. Por outro, a inflação mais alta e persistente do que esperado passou a ser vista como um problema pelas autoridades monetárias, propiciando subidas de juros nos países emergentes e endurecendo a política monetária dos desenvolvidos. As quebras de tendência também foram vigorosas nos preços de commoditites: enquanto a forte desaceleração do setor imobiliário chinês ajudou a reverter a alta do minério de ferro, a recuperação da demanda e a crise energética no mundo colaboraram para a alta no barril de petróleo, que chegou a passar os 80 dólares.

A performance do mercado brasileiro foi um reflexo das fracas convicções e desafios para os países emergentes: alguns estruturais, outros que vieram como sequela do combate à pandemia. Os dados econômicos desapontaram no segundo semestre, com uma piora das expectativas para crescimento do PIB e aumento das projeções inflacionárias. Embora a inflação tenha mostrado espalhamento para diversos grupos importantes ao longo do ano, os preços de energia elétrica e combustíveis tiveram contribuição essencial para a alta de 10% do IPCA em 2021, o que ilustra o quanto o mercado foi pego de surpresa por diversas mudanças de cenário. Dificilmente alguém poderia prever de antemão que a falta de chuvas seria um fator fundamental para determinar a evolução dos preços ao consumidor. Do lado fiscal, os números mostraram melhora, sendo favorecidos no curto prazo pela alta da inflação, mas não por conta de reformas estruturais. Com a queda da popularidade e a antecipação do movimento eleitoral, após a restituição da elegibilidade do Ex-Presidente Lula, o governo deu as costas para as reformas no segundo semestre e passou a se preocupar com as urnas. As poucas tentativas para avançá-las passaram a vir junto com os ataques ao teto de gastos e planos para aumentar os programas sociais.

O resultado da piora dos fundamentos macroeconômicos, aumento da incerteza eleitoral e sinalização negativa para a política fiscal foram evidentes: a bolsa caiu 11.9% no ano e o real se desvalorizou 7.3% frente ao dólar. As principais classes de ativos locais que carregam risco de mercado sofreram perdas em 2021. Em suma, o ano relembrou o investidor brasileiro que não é tão simples de ganhar dinheiro aqui e que fazer investimentos com horizonte temporal curto ou baseados no “Telefone Sem Fio” das narrativas de mercado é desafiador. Até mesmo os investidores ditos mais sofisticados tiveram um ano ruim: o Índice de Hedge Funds Anbima (IHFA), carteira teórica que representa a indústria de multimercados, fechou o ano com rentabilidade de 46% do CDI. A indústria de fundos teve captação líquida recorde em 2021, 369 bilhões de reais, com cerca de 60% desse montante proveniente dos fundos de renda fixa. No mesmo período, os multimercados e fundos de ação, somados, representaram uma captação líquida ínfima, 0.26 bilhões. A expectativa de juros reais positivos é certamente uma característica marcante para 2022, após 2 anos de repressão financeira por aqui.

São comuns nesta época os relatórios focados em tentar prever quais devem ser os melhores investimentos para 2022, com o conhecimento que temos agora sobre o que seria relevante. Achamos que ir por essa linha é contribuir, em parte, com esse telefone sem fio de narrativas, uma vez que nossas estratégias transcendem anos fechados, e consideram incertezas, riscos e assimetrias. Até agora, nos parecem pontos de atenção para os investimentos locais os dados econômicos de crescimento do PIB e endividamento, que podem estressar novamente. O nível e celeridade do aperto monetário que ocorrerá nos EUA é relevante para os ativos globalmente e deve impactar os fluxos para países emergentes. Nesta eleição, muitos aspectos que hoje são mais obscuros devem ganhar relevância, como as equipes econômicas, a capacidade de articulação política e a aderência dos programas de governo às necessidades econômicas do país. Consideramos essas variáveis mais difíceis de deduzir simplesmente a partir das promessas de campanha e pesquisas eleitorais. As fortes correções de mercado nos ativos de risco já anteciparam uma alta de juros mais forte e duradoura, uma leve recessão econômica e muitas incertezas eleitorais. Isso não blinda os ativos de uma piora de cenário e nem da volatilidade, mas pode criar boas oportunidades em termos de risco e retorno. Desejamos a todos um excelente ano de 2022.

z
Fechar