CARTA MENSAL TALER – JANEIRO 2021


“It all comes down to interest rates. As an investor, all you’re doing is putting up a lump-sum payment for a future cash flow.”

Ray Dalio

O ano de 2020 foi marcado por diversas mudanças abruptas, tanto nos mercados como em nossas vidas. A pandemia do coronavírus onerou fortemente a economia mundial, fragilizando diversos setores, punindo os mercados de trabalho e causando um salto sem precedentes no já preocupante nível de endividamento mundial, sobretudo nas economias desenvolvidas. No entanto, a recuperação dos mercados foi tão inusitada quanto o choque que se abateu sobre a economia, com uma rodada de estímulos fiscais e injeções de liquidez nunca antes vistas; o que ajudou fortemente a aliviar as condições financeiras dos países. O ano de 2021 começa com um tom mais otimista, com a perspectiva de uma massiva campanha de vacinação que deverá permitir uma recuperação mais ampla da economia e do mercado trabalho, juntamente com mais uma rodada de estímulos nos países desenvolvidos.

No cenário internacional, os desenvolvimentos do mês foram positivos para os ativos de risco. Por um lado, iniciaram-se as campanhas de vacinação mundo afora, que devem tomar uma boa parte do primeiro semestre até que vejamos alguma resposta relevante em termos de imunização, principalmente porque a maioria das vacinas conta com mais de uma dose para atingir uma eficácia significativa. Não obstante, já temos 3 vacinas aprovadas em diversos países para uso massivo e 7 vacinas aprovadas para uso limitado. Por enquanto, Israel lidera a corrida de imunização com cerca de 20% da sua população vacinada, enquanto os EUA têm cerca de 2% da população que já recebeu a primeira dose.

Nos EUA, mais um pacote de estímulos foi aprovado; serão R$ 900 Bi a serem entregues em ajuda para as famílias e ampliação do benefício do seguro desemprego. Os dois pacotes ficais lançados até agora já somam quase 1/5 do PIB americano. Ainda, é possível que o escopo deste impulso fiscal acabe aumentando em decorrência da finalização das eleições para o senado na Georgia, que acabaram dando mais poder político para os democratas, garantindo o voto de minerva para a vice-presidente Kamala Harris. Com isso, a agenda democrata que almeja aumentar as alíquotas de impostos corporativos, aumentar regulações sobre empresas de tecnologia e, finalmente, ampliar o estímulo para cerca de US$ 3 Tri tornou-se mais provável de se materializar. Esse evento contribuiu para a abertura nas taxas dos títulos de 10 anos do governo americano, que romperam a barreira do 1% e com o aumento da inflação implícita americana, onde o vencimento de 2 anos já supera a meta de 2% do Fed, que adotou recentemente a política de meta de inflação média. O novo panorama de política adotado permite que a inflação permaneça acima da meta por algum tempo para compensar o período onde a meta rodou abaixo de 2%. A Zona do Euro segue sendo uma das regiões mais abaladas pela pandemia, com uma importante escalada das políticas de distanciamento no começo deste ano. Com isso, o BCE, autoridade monetária da Zona do Euro, anunciou o aumento dos estímulos monetários para este ano, o que deve acarretar em um aumento no ritmo do programa de compra de ativos (PEEP).

No Brasil, como reflexo do massivo impulso fiscal empreendido pelo governo, o setor de bens desempenhou um papel importante na recuperação econômica e o mercado de trabalho tem respondido com uma velocidade relativamente alta, embora o caminho da recuperação ainda seja longo. Do lado político, o final do ano trouxe notícias positivas com a aprovação da LDO e a prudente decisão de não renovar o auxílio emergencial, mas as eleições das casas legislativas em fevereiro serão um ponto importante para a aprovação da agenda de consolidação fiscal. Prospectivamente, a não extensão do auxílio emergencial já começa a se refletir nos indicadores de confiança de consumo e de serviços, que se estabilizaram. Em contrapartida, a taxa de poupança nas máximas históricas deve ser um elemento de suporte para a retirada do benefício fiscal, conforme as famílias usem esse colchão de liquidez para suportar seus gastos. Além disso, dados mais positivos com relação à atividade no 4 º Tri podem trazer uma surpresa positiva com relação ao ritmo da recuperação econômica no país, principalmente na parte de bens industriais. Parece claro para nós que o controle e superação da pandemia continuará sendo o fator principal que deve guiar a retomada do crescimento econômico no país este ano. Alguns fatores pontuais como a postergação do reajuste das tarifas de ônibus nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo e a decisão de não aumentar o ICMS em São Paulo são elementos que tiram pressão sobre a inflação de curto prazo, mas dada a reversão das expectativas de inflação é provável que o Banco Central inicie o processo de normalização de juros em algum momento deste semestre.

O cenário de recuperação global e de taxas de juros muito baixas por um horizonte relevante nas economias desenvolvidas continua a favorecer uma alocação em ativos de risco. Seguimos atentos aos desenvolvimentos políticos no Brasil, especialmente as eleições para a presidência da Câmara e do Senado. No geral, o tema de repressão financeira hoje continua tão importante quanto no ano passado, e deve perdurar por um horizonte relevante de tempo.

z
Fechar