Carta Mensal – Dezembro 2021

“The reason lightning doesn’t strike twice in the same place is that the same place isn’t there the second time”

Willie Tyler


O mês de novembro terminou com uma clara deterioração do humor no mercado internacional. A pandemia voltou a ser fonte de preocupação: enquanto a Europa adotava novas medidas restritivas para conter mais uma onda de contaminação, uma nova variante, com diversas mutações na proteína Spike, foi descoberta e causou um risk-off. Os preços refletiram novamente esse ambiente de aversão a risco no fechamento do mês, com alta do dólar e queda nos preços de commodities, bolsas internacionais e nas taxas dos títulos do tesouro americano. O Ibovespa registrou o seu quinto mês consecutivo de baixa, acumulando queda de 14.4% no ano. As informações existentes até o momento indicam que a infecção causada pela Ômicron parece ser mais leve, apesar da variante ser mais transmissível e diminuir a efetividade das vacinas no que diz respeito à contaminação. Acreditamos que é muito cedo para tirar conclusões sobre o impacto disso nas variáveis econômicas.

A inflação está cada vez mais figurando como um problema comum no mundo. Para nós, parece claro que diversos eventos vistos como choques de oferta temporários diante das incertezas da pandemia, provavelmente são resultado de uma demanda superaquecida pela política econômica de estímulos sem precedentes. A situação política nos Estados Unidos chama atenção, uma vez que a inflação já está no vocabulário da oposição, afetando a popularidade do Governo Biden em um ano que precede a eleição do Congresso. Enquanto um pacote fiscal de mais US$ 1 trilhão para gastos com infraestrutura era aprovado neste mês, a inflação ao consumidor já ultrapassava os 6% em 12 meses, e com uma composição bastante disseminada. Jerome Powell foi indicado para mais 4 anos de mandato no Fed, mesmo sendo visto pelos Democratas como a alternativa que deve ter a política monetária mais dura. Não foi surpresa a declaração do chairman em seu testemunho no Senado, de que o termo “inflação transitória” deveria ser aposentado, além de sinalizar aceleração no ritmo de retirada dos estímulos. A percepção do mercado é de subida dos juros americanos já na metade do ano de 2022, potencialmente começando esse ciclo de alta ainda antes.
No Brasil, não bastasse o cenário externo complexo, temos perspectivas econômicas desafiadoras. Provavelmente terminaremos o ano com um IPCA acima de 10%, mais de 625 pontos acima do centro da meta. Para 2022, as projeções dos economistas do Focus também já estão ligeiramente acima do teto da meta. A perda de credibilidade da nossa política fiscal não ajuda nesse quadro, uma vez que exige juros mais altos e por mais tempo.

A PEC dos Precatórios foi aprovada em segundo turno no Senado, sacramentando a alteração no teto de gastos. Algumas partes da PEC sofreram alterações e, portanto, voltarão a ser votadas de forma fatiada na Câmara, como a regulamentação do limite para o pagamento dos precatórios.
Apesar do desempenho positivo e esperado do setor de serviços, PIB do terceiro trimestre veio abaixo das expectativas, caracterizando dois trimestres de queda e uma recessão técnica. Com isso, os analistas passaram a projetar uma alta menor do PIB neste ano, pouco acima de 4.5%. A combinação de juros reais mais altos e crescimento baixo ou negativo deve voltar a piorar a nossa trajetória da dívida já no primeiro trimestre do ano que vem.

Acreditamos que os riscos macroeconômicos e as incertezas eleitorais já estão razoavelmente bem precificados nos ativos brasileiros, para os quais estimamos um prêmio de risco relevante. As empresas listadas continuaram reportando bons resultados no terceiro trimestre, com aumento dos lucros operacionais, margens mais altas, e queda de endividamento. É importante ressaltar que o ambiente atual prescreve cautela e diversificação, mas que também pode apresentar excelentes oportunidades.


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