Carta Mensal – Agosto 2021

“Survival as an investor over that famous long course depends from the very first on recognition that we do not know what is going to happen. We can speculate or calculate or estimate, but we can never be certain”

Peter Bernstein

O mês de julho foi marcado por um ambiente de maior aversão a risco, o que impactou em especial os países emergentes. O desempenho dos mercados globais de ações foi misto, com alta das bolsas americana e europeia e quedas fortes no Japão, China e Brasil. Os juros de mercado tiveram uma queda expressiva nos países desenvolvidos, tanto pela desaceleração dos dados de atividade, como pela escalada de preocupações com relação à pandemia. Os ativos brasileiros tiveram performance negativa no mês, com queda da bolsa em quase 4%, desvalorização de 3% do real frente ao dólar e performance negativa dos títulos públicos prefixados e indexados à inflação de média e longa duração.

No cenário internacional, a variante Delta tornou-se a cepa dominante mundialmente e causou um aumento de casos, mesmo nos países onde a vacinação está mais avançada. A subida das hospitalizações não foi expressiva, o que implica impacto econômico limitado. No entanto, alguns países que estão defasados neste processo, notadamente na Ásia, sofrerão com quedas mais relevantes da atividade. No caso dos Estados Unidos, o PIB do segundo trimestre subiu 6.5%, bem menos do que o esperado pela mediana do mercado (8.4%), e com uma contribuição negativa vinda dos estoques, o que pode indicar uma dificuldade subjacente para recomposição por parte da indústria americana. No lado da inflação, os dados seguem pressionados por diversos componentes que parecem ser transitórios, mas outros como os salários e preços de habitação também estão fazendo pressão.

No Brasil, a política voltou a impactar os preços dos ativos, com os holofotes voltados para o risco fiscal. Apesar da melhora no resultado primário do setor público e no indicador de Dívida/PIB, o teto de gastos se tornou uma preocupação. Próximo do ano eleitoral, o Governo está tentando ampliar a base e o valor do benefício distribuído no Bolsa Família, mas o cobertor ficou mais curto. A estimativa para o espaço no teto de gastos que o governo teria em 2022 está diminuindo por conta do menor descasamento entre a inflação que corrige os gastos obrigatórios e aquela que corrige o teto. Além disso, a Justiça comunicou um valor de quase R$ 90 bilhões para os pagamentos com precatórios que precisarão ser inclusos no orçamento do ano que vem. Isso representa um aumento de quase R$35 bilhões em relação ao valor de que o governo esperava para essas despesas. A resposta foi a elaboração de uma PEC para parcelar o valor de alguns destes pagamentos, de forma a achar espaço para a reformulação do Bolsa Família, o que foi mal-recebido pelo mercado.

Os dados de inflação local seguem com uma composição que preocupa o Banco Central. O grupo de habitação está sendo afetado pelas altas nos preços de energia e os preços de bens industriais e serviços continuam mostrando uma aceleração. O COPOM acelerou o ritmo de alta de juros, aumentou a Selic em 1% para 5.25%, indicou um aumento da mesma magnitude na próxima reunião, e comunicou que os juros subirão novamente para um patamar contracionista.

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